2050 mensagens entre e-mails, cartas, bilhetes, dedicatórias em livros. Vinte e um poemas, incontáveis textos em prosa, meia dúzia de viagens, dúzias de taças de vinho. Cinquenta papos sobre filosofia, só três sobre religião. A santíssima trindade dos pensamentos, atos e palavras. Mais de quinhentas conversas sobre o amor, sem chegar à conclusão nenhuma.
Mil trocas de ''bom dia'' e ''boa noite''! Tardes reservadas à pressa de enviar um único beijo. Na soma geral, 997 beijos trocados. Metade dos sonhos realizados, alguns porres de felicidade, quatro ou cinco pesadelos, um punhado de desassossegos. O amor desenrolado como um novelo com o qual brincamos como dois gatos, ainda que no fim da brincadeira o fio não se encontre em lugar algum ou desapareça debaixo de um móvel, como um destes mistérios que se perdem nas casas.
Centenas de carícias entre quatro paredes, onze vestidos novos, oito pretos, dois brancos e apenas um azul-turquesa. Alguns olhares pela janela para saber quem vem e quem vai. Incontáveis passeios a pé, poucos de carro, passagens de ida e de volta, notas de restaurantes, xícaras de café, doces de amêndoa no trajeto da boca entre as línguas, mas sem nenhum idioma.
Entre o desejo e a atitude, uma linha: ''Penso em você.'' Mensagens eletrônicas e de fumaça, gosto de agosto, lua cheia no céu: ''Olha!'' Manhãs de chuva, o poente como um grito alaranjado.
Músicas ouvidas tantas vezes, a mesma música. Quatro, cinco, seis versos interrompidos, filmes inteiros, discos pela metade, promessas pelo direito e o avesso, momentos de guerrilha, instantes de pacificação.
Lembranças que não se contam nos dedos, memórias que habitam sótãos cheios de luz, o olho nas frestas, espreitando sentimentos com delicadeza para compreendê-los. A acuidade dos sentidos, vocábulos refeitos com boa dose de esperança.
A sintaxe do medo, o plano interrompido, a beleza como uma tela onde nos projetamos cento e uma vezes imitando pássaros, querendo a liberdade, sentindo ciúmes, levando frases para o futuro, deixando no passado o samba dos amores perdidos para mergulhar num blues.
O sonho na realidade, na forma desajeitada do impulso: ''Quero te ver, me liga''. Desligando-se de tudo, deixando a vida lá fora para compor um universo íntimo. Às vezes o mundo se acaba, às vezes a melancolia começa do nada, às vezes a alegria aparece subitamente porque vivemos. 1065 dias de amor, um dia para a despedida e o tempo movendo-se como um grande mar tocado pelo vento.

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