"Os índios viram chegar os portugueses, crescer os brasileiros, e têm mais direito do que ninguém a serem eles próprios." (Darcy Ribeiro)

De modo geral, as pessoas evitam qualquer coisa que fuja à normalidade. Por normalidade entende-se manter o padrão, imobilizar estruturas, congelar raciocínios no plano das possibilidades vigentes. Fora isso, tudo é facilmente tachado de irrealista – definição que se aplica a quem "foge da realidade", às vezes porque não deseja hidrelétricas onde existem florestas.
Se mantivermos o pé no terreno estrito da realidade – essa do mundo "pronto" para o qual viemos -, se a mente não voar acima dos padrões propostos, não haverá mudança, não haverá utopia, não haverá, talvez, a melhor parte do homem que é sua capacidade de renovar o mundo. Sem esta ousadia de considerar coisas diferentes ficaríamos pregados no chão, sem chances de criar condições que passam pela revisão de aspectos, culturais, sociais, políticos, econômicos e ambientais. Na verdade, a criação do novo depende de encontrar caminhos que viabilizem as relações humanas levando em conta as diferenças.
É o que sinto quando evocamos manifestação pela liberdade mais simples: a do homem existir conforme seu desejo e suas crenças. Os desejos são variáveis, apesar da forma bruta da sociedade querer encaixar a todos no mesmo quadradinho. O medo é tanto que passa-se a desprezar uma cultura porque vive de modo diferente, planta de forma diferente, fala de modo diferente. Digo isso, porque os índios, ainda hoje, são vistos em sua própria terra como seres exóticos que não merecem crédito porque "plantam menos", "não trabalham", "querer viver livres do Estado", "têm suas próprias crenças."
Opiniões assim são chocantes quando expressadas em redes sociais onde uma camada da população considerada esclarecida emite ideias utilizando uma malha de preconceitos que envolve a sociedade e aprisiona valores - considerados certos ou errados, de acordo com a ótica - na contramão da compreensão de que há povos com costumes diferentes dos aceitos pela mentalidade produtivista.
As diferenças gritantes geram um bocado de preconceito numa sociedade que padece não só de falta de tolerância, como de falta de imaginação para aceitar os que "vivem fora da casinha". O imaginário do índio - entendido como a relação de alteridade de um indivíduo ou grupo com o mundo - é outro. Eles têm valores que o colonizador sempre quis moldar à força de martelo. Impossível. As concepções de cada grupo são únicas. E se aparentemente não têm função, vamos esquecer a função e ficar com a essência. O sonho não serve para nada, no entanto é vital para o equilíbrio do homem. Vamos parar de querer condicionar o índio à sociedade "produtiva" que criamos. Vamos também duvidar das informações divulgadas, a grosso modo, informando, por exemplo, que "eles têm terras demais". Notícias veiculadas esta semana na grande imprensa desmistificam este dado, mostrando que nas áreas de conflito do MS, por exemplo, "a maioria das terras indígenas do Estado foi demarcada entre os anos de 1915 e 1928, quase todas com áreas inferiores a 3.000 hectares. Na época, o governo previa que os indígenas seriam assimilados e desapareceriam como grupo étnico. Mas não foi o que ocorreu."
Mais, segundo a notícia, "atualmente, os terenas, com uma população de 28 mil índios em Mato Grosso do Sul, têm apenas sete reservas exclusivas à etnia, que, somadas, chegam a cerca de 20 mil hectares, de acordo com os dados da Funai. A situação mais grave é a da reserva de Dourados, onde, em apenas 3.475 hectares, vivem 14 mil índios guaranis-caiovás. A densidade demográfica ali é de 403 habitantes por km², quatro vezes maior do que a de Campo Grande, capital e maior cidade sul-mato-grossense, com 97 habitantes por km²".
Então, antes de pensar nos índios como detentores de "terras demais e produção de menos", vamos checar os dados porque contradições não faltam. Os números, em muitos casos, não comprovam a discrepância de "muita terra para poucos homens" na qual querem nos fazer acreditar. Além disso, os índios não precisam se encaixar em nossas neuroses para merecerem respeito. Eles representam a singularidade num mundo conformado que não cria, "produz."

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