O mar não está para peixe e as políticas culturais não estão para verbas, mas temos aí mais uma edição do Festival Literário de Londrina - Londrix - que termina hoje.
No Londrix, nestes nove anos de trajetória, vi João Gilberto Noll, Luiz Ruffato, Fabrício Carpinejar, Cristóvão Tezza e tantos nomes que dão a dimensão deste festival, no qual a literatura não é vista como território de best-sellers ou de livros de autoajuda. A curadoria do Londrix prima pela qualidade. O tema deste ano - Diálogos Literários: Brasil e América Latina - pôs em cena a discussão das aproximações ou distanciamentos culturais do continente.
O Brasil, único país latino-americano onde se fala português, é uma ilha cultural por este aspecto, mas, há um movimento de aproximação determinando um diálogo que se faz através de livros e autores, através de traduções, conexões e trocas. Um dos motivos do distanciamento seria o eurocentrismo, que ainda prevalece entre as elites culturais em detrimento de um olhar para a vizinhança continental.
Este ano, no debate sobre Poéticas Radicais Hispânicas, com Claudio Willer e Floriano Martins, nomes de autores europeus, como García Lorca, foram alinhados com latino-americanos como o equatoriano Hugo Mayo e chileno Vicente Huidobro, que fizeram parte das vanguardas literárias do século 20. No entanto, destes nossos vizinhos pouco ouvimos falar, o que demonstra um apartheid cultural que deve ser corrigido sob a pena de perdemos de vista outros nomes, no século 21, por falta de sensibilidade, conexão e divulgação.
O papel de festivais como o Londrix é ser não somente um evento, mas propiciar formação de ideias e público. Percebo estas características como um dos aspectos que imprimem qualidade a iniciativas culturais que vão além do oba oba. Nesta nona edição do festival também tivemos na cidade o escritor uruguaio Juan Pablo Villa Lobos, o mexicano Alfredo Fressia e nomes nacionais como Joca Reiners Terron e João Paulo Cuenca, um time de primeira.
Se por um lado a literatura de qualidade está na cidade, ajudando a colocar Londrina no mapa, de outro são desanimadoras as contribuições públicas para que este tipo de evento cresça. Este ano, o festival recebeu R$ 42 mil do Promic e contou com o apoio sempre imprescindível da Caixa Econômica Federal, que suplementou com mais R$ 12 mil. Para um evento consolidado, esses recursos são insuficientes. Se o Londrix continua a acontecer é pela ação quase milagrosa de sua equipe.
Este festival faz um importante trabalho de inserção também nas escolas, é um evento formativo com ideias grandes e verbas exíguas. Não só o poder público municipal, como também o estadual, deveria usar lentes mais sensíveis e deixar de economizar com cultura.
A propósito, alguém tem notícias sobre a política cultural do Estado? Em Londrina há demandas que merecem atenção sob o risco de morrerem à míngua, sem falar que entristece voltar à cidade e ver um velho amigo ainda reduzido a cinzas. Refiro-me ao Teatro Ouro Verde, a fênix que continua esperando pela revivificação. Não digo isso por ser ranzinza nem porque também estou ficando velha, digo porque passei 20 anos em Londrina trabalhando com cultura. Me assombram estes tempos de economia e descaso com o que a cidade tem de melhor: sua vocação para a arte.

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