Célia Musilli - Histórias do mar
Tempo de sol e mar deixa histórias que ultrapassam o verão. Nas praias encontramos aventureiros, turistas, marinheiros de primeira viagem, como o rapaz que me contou como esteve frente a frente com um pinguim. O animal, perdido no litoral do Rio, trazido por uma corrente da sua terra gelada ao calor tropical, apareceu numa ilha e carregou com ele uma manhã inusitada.
Ficaram ali por instantes homem e ave, se olhando, até que o pinguim deu o primeiro passo e se dirigiu ao homem como criança que busca proteção. Surpreso, o rapaz não sabia o que fazer com a ave pequena e desajeitada, as penas viscosas de óleo, o olhar de quem pedia ajuda. Horas depois, o pinguim foi deixado num aquário público e a ação valeu uma história que o rapaz repete quase às lágrimas a cada vez que lembra a criatura encolhida que sobreviveu a um desvio de rota, destes que mudam para sempre um destino.
Zeloso de suas histórias marítimas, de cenas quase lendárias pelo que carregam de novidades, Fausto ainda me mostrou um prato de porcelana, estampado com uma figura antiga que, segundo ele, foi encontrado durante um mergulho como uma concha rara, destas que não emitem barulho, mas trazem vozes submersas. Ninguém sabe quanto tempo aquele prato ficou afundado, perdido, sujeito a correntes que o levaram para longe de suas origens. Na parte detrás do objeto um número indica que a porcelana pertence a uma série, o que nos estimula a pensar que ele pode ter algum valor e a simples conjectura nos induz a novas viagens.
Noto que o prato tem marquinhas laterais, sugerindo que esteve pendurado em alguma parede. Fausto me compara a um detetive, digo que a observação é apenas a condição natural de quem perscruta textos, levantando camadas de significados, pistas, estados de espírito, inspirações.
Histórias de mar me levam a ilhas paradisíacas, praias insondáveis, sinto o cheiro de um tempo que não me pertence, de um passado de ondas, ventos, barcos, até mesmo piratas, papagaios e porres de rum. Tudo é possível quando estamos à deriva da imaginação e nada melhor que o mar para nos levar ao sonho.
Ali, no azul em movimento, há gosto de sol e sal, história e mito, odisseias particulares das quais voltamos com algum tesouro. Péssima navegante, contento-me em coletar palavras, impressões de quem viaja e conta como o mundo se abre quando deixamos a terra para ingressar na natureza líquida, onde nosso desejo também se liquefaz. O mar traz humores diversos, sensações diferentes, marés que se agitam conforme a lua. Penso sempre que o mar é mulher, suas conchas e peixes transformam meu olhar num caleidoscópio, repleto de histórias que me contam ou adivinho.
Basta ver o mar, a cada verão, para entender que na vida nada é permanente. É profunda a variação das ondas e os significados que nos trazem os animais marinhos. É nestas horas que dispo minha pele de gente e viro um não sei quê, um bicho da areia que ainda teme a água por sua intensidade e risco. Mas não desgrudo os olhos do mar e sempre que posso afino também os ouvidos para escutar segredos de caramujos, sinfonias de sereias e histórias de quem vai e volta para contar o que nem supomos em terra firme. A vida azul, líquida e transparente me fascina.
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