CÉLIA MUSILLI - Heroína sem balão na HQ
Quando eu era criança e vinha o mau tempo, gostava de ver a mudança da paisagem. Minha contemplação começava no alto de uma escada de 22 degraus. Dali via as nuvens se mexendo como um quebra-cabeças, encaixando-se de modo a não sobrar uma só fresta de azul. Terminava assim meu dilúvio de expectativas.
Para mim, sempre que chove é o momento da grande espera. Paciente como uma índia de mil anos imagino que a chuva é a vivificação das lágrimas do mundo. A chuva me lembra que as tristezas são renitentes, escorrem sem interrupção pelas vidraças. Nunca sei a hora exata da redenção do sol. Só sei que a tristeza, como a chuva, um dia cederá a dias claros, mas absolutamente imprecisos no momento em que os olhos são correntezas de rios onde nem bem se sabe de onde brota tanta água.
As fontes da minha tristeza sempre serão um mistério. Guardo comigo pensamentos que ninguém adivinha, palavras que nunca se dizem, segredos a sete chaves. Penso que assim minha alma encontrou esta formação de montanha melancólica, com os dizeres indizíveis e as distâncias nunca completadas. Vem daí minha paisagem interior onde não há gritinhos de alegria ou pulos de decantada felicidade. A felicidade sempre escorre pelos degraus das estações. Deve ser por isso que encontrei a sublimação das palavras, o silêncio dos distraídos, o grito dos que não fazem alarde. Os escândalos pessoais sempre me parecem inúteis, tempestades em copo d'água. Sou uma sobrevivente das chuvas tropicais.
A esta solidão indescritível devo alguns rabiscos de poeta, as cenas imaginadas, as fotos esquecidas, meu DNA em carne viva. No fundo, no fundo, desde que me colocava no alto daquela escada de 22 degraus eu já tinha a consciência imatura e embaçada da longa solidão humana. No fundo, no fundo, sempre me senti um peixe fora d'água, um gato no aquário, uma borboleta sem asa, formiga sem folha, super heroína sem balão na HQ. No fundo, no fundo, estar por aqui nunca me pareceu confortável. É como se tivesse que voltar rapidamente sem adivinhar a saída. Então, na maturidade, enquanto me despetalo como margarida no jogo do bem-me-quer, sonho com a liberdade da arrebentação do sol ou com o apagar das luzes. Não costumo cultivar pensamentos destrutivos nem atos sombrios, mas com serenidade muitas vezes desejo que algumas circunstâncias passem rápido, como uma sucessão de imagens até a visão daquele clichê do cinema americano onde se lê sem surpresa: ''The End''.
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