A data passou. Perdi o Dia dos Namorados falando de um filme que tem a ver com amor, embora seja uma comédia. E quem disse que amor não é comédia? Comédia e drama? Cativo dos extremos emocionais da humanidade é sobretudo dedicação, que aumenta ou definha com o tempo.
Bonito mesmo é ver um amor começando, aquele sussurro de pombinhos, ruídos de asas, de patas de insetos, tudo tão delicado e perceptível ao outro. Se a namorada faz um dengo, o namorado nota. Quer sorvete? Andar de patins? Entrar na banheira? Trocar a balada por um encontro íntimo? O namorado está lá para compartilhar as vontades, cumprir as promessas, sem atrasar nem um dia, assíduo como um jardineiro devotado. E a namorada então? Alisa a camisa dele, arruma o colarinho, faz brigadeiro às 5 da tarde, põe o vestido que ele gosta, o perfume que escolheram dando cheiradinhas no pescoço, no decote, no pulso. Ai!
Quem me dera que Nossa Senhora de Todos os Enamorados perpetuasse a malícia, a graça, a percepção dos primeiros encontros. Neste tempo, neste átimo de plenitude, nenhuma nuvem encobre o amor, que cintila na aparência, nos olhos, na pele iluminada. Que grande milagre é o amor.
Depois, como tudo que depende do tempo, a relação se consolida e perde as faíscas iniciais, os átomos da paixão, o balé da conquista, os termos da sedução. Pode até não perder totalmente a graça, há outros caminhos, veredas onde parece que a afirmação já não precisa ser repetida a todo instante. Mas que saudade do tempo em que ninguém virava o disco, repetindo: ''eu te amo, te amo, te amo''. Enquanto o outro respondia: ''eu também, eu também, eu também''.
Quem dera os cupidos estivessem sempre alertas para dar ao amor, a cada dia, a chama do início. No começo, os defeitos não existem ou estão em águas profundas. Toda vontade é dizer: ''Vem cá meu bem''. E trocar carinhos como quem dá o que está sobrando, sem economia, sem fazer as contas, sem subtrair do outro o que se quer apenas dividir.
É, minha visão do amor é romântica. Alguns diriam que ''ninguém vive assim'' porque as relações têm prazo de validade e chega um dia em que toda sedução resulta numa indiferença que só de pensar dói. Proclamam por aí que isso é natural. Os dois no sofá já não se sentam juntos. Um quer esticar as pernas e vai para a poltrona, para o isolamento que depois termina em queixas por causa do atraso, dos roncos, da toalha molhada em cima da cama, da falta de sal na comida, da falta, enfim, de tempero na vida. E acabou-se a rima.
Aí, os desencontros vão mostrar que um dos dois não quer mais dividir a coberta, reclama do frio, do volume da TV, do tédio e chega o dia do casal procurar novos endereços. Um vai para a cidade grande, outro para a praia. Tão díspares, tão diferentes que a gente pensa que o amor faz mal e se torna uma doença de cura impossível quando os anos passam.
Mas há quem diga que não. Que o amor é bom quando amadurece, quando, de fato, se conhece o outro, identificando-se os defeitos, privilegiando-se as qualidades e seguindo em frente. Nesta fase há os que dão ao amor o nome de companheirismo, amizade, outros até o chamam de compartilhamento de bens ou apólice de seguros.
Da minha parte, do alto do que restou de juventude e ''imaturidade'', do que restou da necessidade de poesia em matéria de amor, digo que quando a gente muda o nome das coisas é porque mudaram os sentimentos. Não, nem é preciso ficar eternamente como dois pombinhos, gatos no cio, abelhas no mel. Mas é preciso guardar alguma doçura, a graça dos começos, o brilho inaugural como um tesouro nos dias que se sucedem, nos anos que passam, nas bodas que nos trespassam ou não chamem de amor o que se tornou apenas um hábito. E me perdoem o romantismo nestes tempos duros que desafiam todas as delicadezas.
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