Súbita delicadeza
Sou suscetível a palavras, tons, ao modo como argumentam me abrindo os braços ou fechando o caminho das ternuras. Nasci assim, como pássaro que sente a direção do vento, a sutileza do sopro, a temperatura da brisa.
Então, em caso de amor, que me conduzam com beijos na trilha do corpo em geografia plena, com a carícia que ensina a cada poro a lição da doçura, com a umidade que fertiliza momentos que nos dão movimentos de pétalas.
Porque o amor, ainda que inserido na brevidade de um dia ou na eternidade dos séculos, existe para derreter nossas camadas de orgulho, de raiva e de impaciência, tocando nosso coração com a peculiaridade das coisas feitas para suavizar a crueza do mundo.
O amor é a passagem possível para um estágio de súbita delicadeza, desejos que se conjugam, verbo derramado com a generosidade do alimento farto.
Então, em caso de amor, não corrijam meus possíveis erros com exaltada fala ou com interpretações duras. Antes, reconheçam que aquilo que se vive por amor será, no fim de tudo, a única força capaz de reverter o imponderável encontro com o vazio, iluminando os dias passados com pequenos insigths de felicidade.

A quem amei
Sempre trato com delicadeza as pessoas a quem amei. Ainda que tudo aquilo que um dia amei perca a conexão com seu significado. Mesmo assim, sou do tipo que respeita até o fim o que amei e não me valho de subterfúgios para dizer o que precisa ser dito, para fazer o que precisa ser feito. Dou eu mesma a instrução que indica a mudança de rumo e sinalizo a estrada: ainda que triste como o ocaso, solitária como a árvore-mãe, imprevisível como um caminho que se perde e me despeço com o agradecimento dos simples e a graça dos puros.
Quando vou embora, sempre olho nos olhos das pessoas a quem amei. E da mesma forma que me abri em pétalas, recolho-as com sentimento de gratidão por algum dia terem desabrochado. As pétalas deixo entre os livros, onde os poemas guardam segredo de imaterialidades. Alguém sabe a quem se destina o canto, a pausa, o movimento de delicadíssima despedida, como pluma de afeto que não se sustenta no ar?
Meus poemas foram todos feitos de sentimentos que merecem a celebração das vitórias e a unção das derrotas. Então, deve haver um perfume, um âmbar que sele para sempre o desprendimento de uma história de amor. Por isso, acaricio até o fim as pessoas que um dia amei. Sua passagem é como a fumaça do incenso levando minha dor inconfidente e os fios desconectados de um indizível afeto. Não estão mais aqui as pessoas a quem amei.

Oceânica
Se eu tivesse juízo, não pensava mais em amor. Estive por aqui de amor, ó. Mas eu gosto tanto. Sou riquíssima em perdas e delicadezas, sei que não sou a única, mas rios delas correm dentro de mim. A nascente dos sentimentos, apesar de tudo, não seca. E na foz das palavras quantos versos, quantos cantos, quantos encantos, quantos sussurros.
Mas, como dizia, se eu tivesse juízo, não pensava mais em amor. Pensava numa vida prática, tudo nos seus lugares, sem esperanças nem ilusões. Apenas a vida, a vida como um riachinho, onde a gente afunda os pés, só até os tornozelos.
Mas sempre quis o oceano, navego muitas vezes sem farol, a esmo, correndo o risco das águas profundas. Nasci marinheira, sabe? Marinheira e poeta. Na palavra, e só nela, encontrei a redenção das delicadezas doídas e as tatuagens diáfanas do meu espírito sempre inquieto.

(Textos do livro Todas as Mulheres em Mim - Kan Editora e Atrito Art, 2010)

[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net

mockup