Labirinto
Passeio dentro de casa. Lá fora só havia pontos, dois pontos, reticências, resistências, nunca uma frase inteira, uma história com mais começo e menos fim. Quis dar a volta ao mundo, viajar de mãos dadas, pegar arco-íris, me embebedar de sumo, acabar o vinho, secar o copo, dar uma festa bêbada de alegria. Mas há os que sonham menos, a vida é de carne e osso, a poesia transborda como um afeto líquido, que não cabe em lugar algum, em tempo nenhum. É um rio num espaço exíguo.
Então, eu que não sou de forçar a barra, passeio dentro de casa. Uma gata com sede, um cachorro com medo, um pássaro preso, uma mulher lutando, uma fera no sótão, um homem com as roupas molhadas. Não é muito confortável meu esconderijo, mas não quero o ruído nem o silêncio dos que já partiram. Se fosse lá fora, haveria sementes, a terra sulcada, a chuva ininterrupta, a exposição ao calor e ao frio, a promessa de renascimento. Mas há dias em que a gente desiste da existência. Pra que tanta insistência? Quando tudo é dilacerante e claro: o amor que começa com um poema, termina com outro poema. E é bonito que seja assim.

O texto é o silêncio
Escrevo elucubrações do visto e do não visto, do existente e do impossível. Todos os sentimentos. As incertezas como conchas que se abrem sem pérolas por dentro. Se soubessem quanto valorizo as palavras, não deixariam este hiato no meu pensamento que se move em ondas. Às vezes me arrebento nas pedras. Às vezes flutuo como uma alga, transparente e inofensiva. Indiferente não fico, porque sou vibrante, de natureza marítima, em dia de sol ou de chuva.
Se soubessem o quanto gosto das palavras, das sílabas, dos murmúrios. Se soubessem o quanto gosto de ter pensamentos. Minha melhor amiga, eu mesma. Minha pior inimiga, eu mesma.
O pensamento me leva a muitas frações do ser, transito da dor à delícia, com facilidade. Quando me resta o silêncio, dedico-me a contar estrelas e esta vastidão de mundo faz com que meus pensamentos se abram como paraquedas. Salto onde bem entendo e vou criando minha aventura. Intimamente, sou uma mulher ''on the road''.

Viagens de Ana
Dentro de Ana há muitas paisagens. Às vezes ela atravessa desertos, mergulha em oceanos, deita em nuvens de algodão. Nas paisagens há rostos conhecidos ou uma multidão de desconhecidos a serem descobertos. Não fosse o milagre do inusitado, a vida teria menos emoção, menos vibração, Ana estaria encolhida à condição do senso comum, onde tudo é igual. Ela prefere aventurar-se, ainda que aparentemente não esteja em movimento. Seu corpo permanece estático, mas seu espírito entra e sai do futuro. As paisagens a conduzem à vida nômade onde percorre estradas que só ela avista. Elas mostram como sobreviver às intempéries e Ana as experimenta, ainda que ninguém o saiba.

[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net

mockup