Blues
  Quando dói, resta um texto do qual extraímos sentimentos que arrebentam no vácuo de um big bang da existência. Ou vocês acham que só as estrelas se comprimem, sufocam e se fragmentam? Bobagem. No caso de um texto não ser suficiente para conter a dor e abraçá-la, acalmando-a como a angústia transformada em ursinhos de pelúcia, então buscamos outra solução. A garrafa de vinho na adega improvisada, o rótulo que indica merlot para dores ácidas e sentimentos confusos, e enchemos o copo uma, duas, três vezes, até as uvas liquefeitas serem a única paisagem.
  Caso o vinho não seja suficiente para conter a dor, a gente ouve um blues. Coloca um CD do velho Wolf, que uiva como um lobo apartado da matilha, e toma um, dois, três copos, abraça a angústia como um ursinho de pelúcia e ainda sente que, lá dentro, há um texto a ser inventado como o som profundo do coração humano, aquele que tem o DNA dos lobos em aflição.
  Assim, bebendo, ouvindo blues e fazendo um texto pequeno como um microscópio mirando o big bang particular, torço para que o dia arrebente as nuvens brancas, o algodão etéreo como gase sobre machucados, e se transformem de uma vez em cores violáceas como as petúnias e os hematomas. Sobre elas vou derramar o vinho, zombar dos cantos de ninar e emprestar de Wolf o uivo que soa como um deboche, uma zombaria sobre a capacidade de sentir intensamente. Assim, meio bicho e meio gente, meio loba se soltando da armadilha, sonho em me tornar a mais irônica das mulheres no dia em que me transformei num blues.

A dança das coisas delicadas
  A melancolia é meu ‘‘defeito de fábrica’’. Nasci assim, no limite. Então as vezes é inevitável que eu sinta a poeira fina que cai como orvalho sobre meus tantos sentimentos. Há os que vivem a melancolia e os que vivem a euforia, ajudando a detonar a bomba interna da alegria passageira com aditivos que os colocam instantaneamente de bem com a vida.
  Sinto-me um pouco deslocada por não ser a mais festiva das pessoas e sentir tédio em reuniões sociais. Este detalhe espanta os ouvintes a cada vez que confesso não querer o que quase todos querem. Meu desejo, nestes dias, é apenas aumentar a própria sintonia com o íntimo das coisas, naqueles sossegos silenciosos, naqueles pedacinhos do ser que nos revelam a poesia e a festa da Existência de outro modo. Desejaria talvez, compartilhar o pôr-do-sol ou as estrelas de um tempo mutante com quem se deslumbrasse com a mesma beleza, esta que nos tira as palavras pelo encantamento. Esta que nos leva instantaneamente a outra dimensão de mundos mais delicados e propícios ao canto de passarinhos, músicas da chuva e à contemplação dos universos íntimos.
  Os familiares e os amigos nos chamam em outras direções. Ao clichê dos almoços, festas e rojões barulhentos. Não me nego à vida corriqueira, seria também uma tola se não espiasse a vida como ela é, ainda que o faça com o cantinho do olho e querendo seu avesso. Porque no avesso, aí sim, vejo melhor a trama do bordado, meu pêndulo interno a contar as horas, dias e anos de desejo de uma intimidade maior com o universo do qual sou transeunte.
  Talvez eu não queira as rodinhas, mas a Grande Roda que me conecte a vivências cósmicas, ao trabalho das formigas, à paciência das flores. Não, não procuro o grande Deus, mas os pequenos, por isso me afastei das religiões e extingui as possibilidades de participar de grupos que cantam a Aleluia sem alma. Então, é solitária a vida de quem não se associa por descrença ou sacadas metafísicas que excluem o dejà vu dos ‘‘pagodes de luz’’!
  Assim como é solitária a vida de quem não quer aditivos para fabricar a alegria, mas deseja o desvario natural de uma mente aberta e sensível como o movimento das estrelas. Ao mesmo tempo, cai sobre mim o orvalho desta melancolia que me faz mais humana, mais gente, com todos os nervos e carnes expostas, sentindo que é tão bonito e tão difícil saber dança das coisas delicadas.

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