CÉLIA MUSILLI - FRAGMENTOS
Blues
Quando dói, resta um texto do qual extraímos sentimentos que arrebentam no vácuo de um big bang da existência. Ou vocês acham que só as estrelas se comprimem, sufocam e se fragmentam? Bobagem. No caso de um texto não ser suficiente para conter a dor e abraçá-la, acalmando-a como a angústia transformada em ursinhos de pelúcia, então buscamos outra solução. A garrafa de vinho na adega improvisada, o rótulo que indica merlot para dores ácidas e sentimentos confusos, e enchemos o copo uma, duas, três vezes, até as uvas liquefeitas serem a única paisagem.
Caso o vinho não seja suficiente para conter a dor, a gente ouve um blues. Coloca um CD do velho Wolf, que uiva como um lobo apartado da matilha, e toma um, dois, três copos, abraça a angústia como um ursinho de pelúcia e ainda sente que, lá dentro, há um texto a ser inventado como o som profundo do coração humano, aquele que tem o DNA dos lobos em aflição.
Assim, bebendo, ouvindo blues e fazendo um texto pequeno como um microscópio mirando o big bang particular, torço para que o dia arrebente as nuvens brancas, o algodão etéreo como gase sobre machucados, e se transformem de uma vez em cores violáceas como as petúnias e os hematomas. Sobre elas vou derramar o vinho, zombar dos cantos de ninar e emprestar de Wolf o uivo que soa como um deboche, uma zombaria sobre a capacidade de sentir intensamente. Assim, meio bicho e meio gente, meio loba se soltando da armadilha, sonho em me tornar a mais irônica das mulheres no dia em que me transformei num blues.
A dança das coisas delicadas
A melancolia é meu defeito de fábrica. Nasci assim, no limite. Então as vezes é inevitável que eu sinta a poeira fina que cai como orvalho sobre meus tantos sentimentos. Há os que vivem a melancolia e os que vivem a euforia, ajudando a detonar a bomba interna da alegria passageira com aditivos que os colocam instantaneamente de bem com a vida.
Sinto-me um pouco deslocada por não ser a mais festiva das pessoas e sentir tédio em reuniões sociais. Este detalhe espanta os ouvintes a cada vez que confesso não querer o que quase todos querem. Meu desejo, nestes dias, é apenas aumentar a própria sintonia com o íntimo das coisas, naqueles sossegos silenciosos, naqueles pedacinhos do ser que nos revelam a poesia e a festa da Existência de outro modo. Desejaria talvez, compartilhar o pôr-do-sol ou as estrelas de um tempo mutante com quem se deslumbrasse com a mesma beleza, esta que nos tira as palavras pelo encantamento. Esta que nos leva instantaneamente a outra dimensão de mundos mais delicados e propícios ao canto de passarinhos, músicas da chuva e à contemplação dos universos íntimos.
Os familiares e os amigos nos chamam em outras direções. Ao clichê dos almoços, festas e rojões barulhentos. Não me nego à vida corriqueira, seria também uma tola se não espiasse a vida como ela é, ainda que o faça com o cantinho do olho e querendo seu avesso. Porque no avesso, aí sim, vejo melhor a trama do bordado, meu pêndulo interno a contar as horas, dias e anos de desejo de uma intimidade maior com o universo do qual sou transeunte.
Talvez eu não queira as rodinhas, mas a Grande Roda que me conecte a vivências cósmicas, ao trabalho das formigas, à paciência das flores. Não, não procuro o grande Deus, mas os pequenos, por isso me afastei das religiões e extingui as possibilidades de participar de grupos que cantam a Aleluia sem alma. Então, é solitária a vida de quem não se associa por descrença ou sacadas metafísicas que excluem o dejà vu dos pagodes de luz!
Assim como é solitária a vida de quem não quer aditivos para fabricar a alegria, mas deseja o desvario natural de uma mente aberta e sensível como o movimento das estrelas. Ao mesmo tempo, cai sobre mim o orvalho desta melancolia que me faz mais humana, mais gente, com todos os nervos e carnes expostas, sentindo que é tão bonito e tão difícil saber dança das coisas delicadas.
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