A quem sonha
Existe o momento de não se tocar na ternura, para que adormeça intacta como a beleza a ser contemplada. Existe o momento de não desatar a fantasia, para que os laços não se desmanchem. Existe o momento de guardar silêncio em meio aos discursos, para que as revelações se aquietem como sentidos que não requerem tradução, mas se expressam como a veia no pulso, viva e oculta. Existe a hora de acordar e a hora de dormir, não nesta ordem. Mas as duas coisas têm a mesma intensidade sobre a qual deslizamos, reconhecendo tons, nuances, diversidades, opostos, superfícies.
Hoje quero falar e me calo, para guardar a impressão profunda da descoberta indizível, destas que, por essência e mágica, pertencem ao reino do que apenas se sente. Apesar de todas as línguas, linguagens, sintaxes e articulações existem momentos de não se tocar na ternura, não se falar de amor, de adormecer como os tolos que desconhecem palavras. Deixar que a sensação seja a de um arrepio, sutil demais para que permaneça nos poros.
Existe a hora de expressar e a hora de sentir, embora as duas coisas se misturem e o silêncio às vezes diga tanto quanto a noite prolixa de ruídos e estrelas. Você sabe, existem vozes que não se escutam, luzes que nem se veem.
Então, hoje quero adormecer como quem desconhece o verbo. O que eu tinha a dizer foi brisa, a delicadeza de uma canção sem ecos, destas que sobem até as nuvens e se dissipam, carregando o som e as rimas de um instante único. A isto eu chamo ''abstração do afeto'', que não se traduz nem se toca, embora se adormeça no abraço intangível de um sonho. O amor é um pássaro que precisa voar entre as sutilezas.
A flor e o sonho
Sonhei com uma flor entre as pedras, intensa e colorida, de um vermelho entre o sangue e o vinho, duas expressões da vida. Mas a flor era mais simples que a vida, embora tivesse a mesma teimosia, de vingar sobre a aridez. Era uma destas plantinhas vulgares, que não exigem muitos cuidados como as petúnias aveludadas, as orquídeas que só florescem uma vez. Era uma flor destas que chamamos beijinho ou maria-sem-vergonha, vermelha como ficam as crianças quando descobrem como nascem.
A flor enfeitou meu sonho. Era um feixe de pétalas ao sol, um sol que castigava. E tendo a pedra por baixo, a pedra como solo, a pedra como casa e habitat, sobrevivia como um signo da poesia, que embalei no sono e guardei para trazer aqui. A flor, mais que sonho, mostra a beleza que resiste acima das asperezas dos nossos leitos de pedra.
Brincar de silêncio
Acordei com as palavras querendo pular da sua caixa de brinquedos. Queriam virar um poema, um teorema, uma trama de saudade. Pedi que sossegassem no sono, no sonho, no sótão do meu coração de vidro e dos meus nervos de nylon. Outro dia estico a linha dos vocábulos como as cordas de um violoncelo para fazer a música, o canto daquele rio sem afluentes, contornando a solidão no mapa e a geografia dos sertões que escondem bichos. Outro dia estico o rio da sintaxe, carregando pedras, folhas, peixes, lâmina e o veludo das coisas pontiagudas e macias... Mas agora não. Ou as palavras brincam ou voltam à sua caixa de segredos. De lá só devem sair para a distração da angústia, o jogo de amarelinha, o diálogo das bonecas, o conto do 'era uma vez'... dor. Hoje o dia é de ciranda ou de silêncio.
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