CÉLIA MUSILLI - Fragmentos
A quem sonha
Existe o momento de não se tocar na ternura, para que adormeça intacta como a beleza a ser contemplada. Existe o momento de não desatar a fantasia, para que os laços não se desmanchem. Existe o momento de guardar silêncio em meio aos discursos, para que as revelações se aquietem como sentidos que não requerem tradução, mas se expressam como a veia no pulso, viva e oculta. Existe a hora de acordar e a hora de dormir, não nesta ordem. Mas as duas coisas têm a mesma intensidade sobre a qual deslizamos, reconhecendo tons, nuances, diversidades, opostos, superfícies.
Hoje quero falar e me calo, para guardar a impressão profunda da descoberta indizível, destas que, por essência e mágica, pertencem ao reino do que apenas se sente. Apesar de todas as línguas, linguagens, sintaxes e articulações, existem momentos de não se tocar na ternura, não se falar de amor, de adormecer como os tolos que desconhecem palavras. Deixar que a sensação seja a de um arrepio, sutil demais para que permaneça nos poros.
Existe a hora de expressar e a hora de sentir, embora as duas coisas se misturem e o silêncio às vezes diga tanto quanto a noite prolixa de ruídos e estrelas. Você sabe, existem vozes que não se escutam, luzes que nem se veem.
Então, hoje quero adormecer como quem desconhece o verbo. O que eu tinha a dizer foi brisa, a delicadeza de uma canção sem ecos, destas que sobem até as nuvens e se dissipam, carregando o som e as rimas de um instante único. A isto eu chamo abstração do afeto, que não se traduz nem se toca, embora se adormeça no abraço intangível de um sonho. O amor é um pássaro que precisa voar entre as sutilezas.
Flagrantes
Gosto de sentir a felicidade máxima em tempo mínimo. Gosto de sentir o vento quando atravesso a rua e minha saia se levanta como se eu tivesse asas. Bailarina do acaso, danço na calçada, num pequeno espaço, num quadrilátero, ouvindo a música do vento.
Gosto de beijos porque as línguas se encontram no átrio do desejo, labareda que nos consome, coisas que não se dizem, emoções que se calam.
Gosto de sentir o perfume das árvores, onde flores noturnas se penduram, como estrelas brancas. Outro dia, acreditem, uma folha caiu no meu decote, andei assim maravilhada com aquele presente, a dádiva, o broche, andei como uma Eva vespertina, cruzei a cidade com a minha fantasia.
Gosto da companhia do acaso e gosto de pensar que os tempos não se repetem, os momentos não se repetem, a vida não se repete porque sua dinâmica é mágica, acontece até mesmo em segundos e, no entanto, a memória existe pela eternidade, subvertendo o início e o fim...
Gosto de me despir das folhas e comer os frutos no tempo em que são me dados. Banquetes instantâneos em que flagro a felicidade num átimo, num lapso, num voo com os deuses inconstantes e, assim, me encho de fé...
Espelhos
Se existe uma coisa de que gosto são teus olhos. Dos quais beijo as pálpebras para guardá-los como duas amêndoas, à prova de furto ou de ciúme.
Se existe uma coisa de que gosto são teus olhos. Dourados na alquimia do teu pensamento e através dos quais alcanço pela pupila teu coração, que pulsa num labirinto.
Se existe uma coisa de que gosto são teus olhos. Que riem antes da boca, na expectativa de alguma felicidade, mas neles também brota o choro, como um afluente.
Se existe uma coisa de que gosto são teus olhos. Onde me vejo como num espelho em que me adivinhas, dilatada nas carícias que se derramam na visão do sonho.
Só não sei se neles vou sobreviver como uma fotografia. Ou serei transformada num caleidoscópio, que gira sempre à procura de um ângulo fragmentado e novo.





