CÉLIA MUSILLI - Feminilidades
Hoje vou me dedicar às coisas que fazemos sozinhas, aquelas que pedem quietude e delicadeza. Nada muito grandioso, apenas o pulsar dos pequenos gestos que não exigem esforço, não alteram minha respiração nem meus batimentos cardíacos. Enjoei dos riscos, das perguntas sem respostas, das incertezas que dependem de um sim, da afirmação que abre espaços inseguros porque na hora H as ondas se movem e a vida não cabe na garrafa. A vida é um licor que transborda.
Então, vou fazer aquelas coisas que não exigem nada, que se completam em si mesmas, atos tão simples como enfiar as contas de um colar, calçar as meias, apreciar objetos, olhar a chuva, acender incensos, sentir a náusea de um perfume antigo, guardar a caixinha de sândalo, escrever palavras que pedem passagem, beber o chá, contar as folhas no fundo da xícara, desprezar sortilégios, rir da própria humanidade, ignorar o poder, ser livre para pensar, dançar rumba, vestir-se como bailarina, subverter o pas-de-deux, transgredir as horas, esquecer-se de todos os poemas escritos e de todos que ainda vou escrever.
Hoje quero comer morango, tingir a língua, piscar o olho para um ser imaginário, molhar a boca com o vinho apropriado aos dias frios, lembrar que vi abelhas enlouquecidas, divagar sem me prender ao pensamento, repassar álbuns de retratos, me ver criança, ouvir pela décima vez a mesma música, andar descalça, fazer apenas uma oração, conjurar os anjos, brincar com as salamandras das chamas das velas, colocar as mãos sobre o fogo, viver a fração do tempo como um beijo-flor na proeza do voo. Hoje, quero me dedicar ao extremo ato das coisas simples, numa outra espécie de transbordamento, a devoção a cada hora vivida, o ritual dos tolos, o ritual dos sábios. Hoje parei o futuro.
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





