CÉLIA MUSILLI - Feliz Ano Novo
Mais algumas horas e estará tudo resolvido: brinde com champanhe, arroz com lentilha, a impecável roupa branca para que os deuses nos enxerguem melhor e nos cubram de bênçãos. Adoro celebrações, mas fico pensando no que poderíamos fazer de diferente para mais esta passagem, inaugurando 2013 com pompa e circunstância depois do susto com a previsão de fim do mundo no ano que passou.
Claro, eu também brinquei de fim de mundo. Acham que ia perder a chance de ver um espetáculo daqueles sem visão em 3D, um piano de Mozart ou o sax de Miles Davis? Eu não, o mundo teria mesmo que acabar em grande estilo, assim como começou, com a voz de Deus sóbria e segura dizendo que fez isso e aquilo em um, dois, três, sete, dias. Se não desse para narrar ao vivo que fosse em off, mas eu queria - ah! se queria - ouvir a voz de Deus, além de ver os anjos e suas trombetas passando num show maior do que estes do Cirque du Soleil.
Mas que nada, no máximo, o que podemos ver é Júpiter e a Lua juntinhos isso sim, só não vê quem não quer desde o último Natal e aquele espetáculo do alinhamento de Saturno, Vênus e Mercúrio que tem se repetido todas as madrugadas, entre 4 e 5h30, ali pelos lados da nascente. Sim, claro que acho tudo isso lindo e para ser sincera é bem melhor do que ver por aí as tais línguas de fogo, astros em queda e trombetas que até poderiam desafinar na hora H, tamanho o pânico dos protagonistas do Apocalipse. Porque fim do mundo, senhoras e senhores, não é uma superprodução de Hollywood, o fim do mundo não teria preço, nem orçamento que cobrisse, a esta altura estaríamos todos mortos, fritos como pastéis em feira.
Passado o susto, proponho um réveillon como se deve ou comme il faut, que é para gastar a língua no idioma mais bonito do planeta, fazendo um agrado aos deuses que preservaram nossos povos e nações, apesar daquele mau augúrio do calendário maia.
Passado o susto, pensem numa celebração ecumênica com tambores africanos que são muito mais alegres que harpas chuvas de papel picado, danças em torno do fogo com todo mundo cantando numa língua única depois de falar uns versos no idioma de Rimbaud.
Temos que mostrar aos deuses aí em cima que adoramos a vida na Terra, nossas plantas e bichos, e fazer preces xamânicas pela solidariedade das raças, as etnias híbridas, as peles de todas as cores, os sons que invadem ouvidos planetários e reúnem os povos sem fronteiras. Temos que mostrar, enfim, que prezamos a tal hu-ma-ni-da-de, soletrada assim como quem reaprende o bê-à-bá depois do fiasco do fim do mundo.
O ano que vem aí é o da serpente no horóscopo chinês, animal astuto e sábio que deve nos encher de entusiasmo e coragem para fazer coisas que nem supúnhamos que fôssemos capazes. Vamos brindar ao novo ano então, de branco, azul, vermelho, amarelo, todas as cores do arco-íris que, depois do sol e das estrelas, é a única coisa diferente que se vê no firmamento, ainda bem. Abaixo o Apocalipse, vamos hastear bandeiras pela vida e tocar tambores como quem rende um tributo à humanidade. Soletrem assim, hu-ma-ni-da-de, para sabermos que somos capazes de compreender a língua dos homens, antes mesmo de tentar compreender a palavra de Deus que é uma coisa complexa, mesmo narrada em off.
Pelo que entendi, o mundo foi feito em sete dias e não tem prazo de validade, deve durar pelos séculos, amém.
Então, Feliz Ano Novo! Mais uma vez.
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





