2011 terminou. Mas eu já tinha virado o calendário, estava com pressa de começar um novo ciclo. Tenho olhos de gato mundano, ouvidos de cão amestrado, conheço a sequência dos prazos, então antecipo tudo. Despedidas me emocionam, mas a existência é mutação constante, senhora do tempo e do espaço. Não conseguimos agarrar para sempre os momentos felizes, nem guardar os infelizes. Há sempre um vento virando as páginas e nisso consiste a graça de viver.
Se eu fosse segurar momentos inesquecíveis de 2011, ficaria com os mais doces e os autênticos. Não posso enumerar aqui as lembranças que protegeria com as mãos em concha, como quem acaricia um pássaro. Mas certamente seguraria com força a poesia, as amizades, a beleza de ver meus dois filhos crescendo. Há coisas que pertencem apenas a nós mesmos, não podem ser divididas, são egoisticamente nossas e são momentos de felicidade, me lambuzo nelas como criança em fábrica de chocolate.
Me despedi de 2011 com gratidão porque realizei coisas quase impossíveis. Atravessei fronteiras físicas, mentais, emocionais para viver aquilo que desejo. Entre as coisas que me sensibilizam estará sempre a poesia, dedicada à existência. Escrevi muito, maturei a seiva de uma planta indócil chamada texto, que agora cresce mais livre. Não fiz as contas de quantos versos achei e quantos perdi. Não fiz as contas de tanta emoção sentida e tanta emoção ressentida. Congelei as dúvidas para o ano que vem.
Quanto à dor, não fico acima nem abaixo dela, para que não me fustigue. A sensibilidade sempre foi meu traço caótico, ela me leva à criação ou à frustração. Meus altos e baixos estão cheios de brilho e de escuro. Também perdi a conta de quantas vezes me ofendi com bobagens ou quantas vezes me magoaram com coisas concretas ou dissimuladas, sou daquelas que mesmo fingindo que não sabe, sabe. Tenho feeling de cão amestrado, sentidos de gato mundano, pressinto movimentos à distância, mas também sei perdoar. Sem perdão não há leveza possível.
Este ano foi cheio de pressentimentos, intuição refinada, desejos à flor da pele, sonhos conquistados. Aprendi a falar com interlocutores invisíveis, dialoguei com Deus, com gente que nunca vi, todos generosos como uma árvore cheia de frutos. Me lambuzei na delícia das novas amizades, percorri outros caminhos e só posso dizer muito obrigada!
2011 foi um desafio, um espelho d'água onde refleti o melhor e o pior de mim. Foi o ano em que, definitivamente, selei um pacto de felicidade mudando rotas e isso exige coragem. A liberdade nos revela a amplitude das coisas, a largueza das possibilidades, nos mostra que podemos ser mais do que o papel que achamos que nos cabe. Somos múltiplos e podemos nos adaptar a muitas circunstâncias, nós é que nos limitamos. Acreditem na liberdade de ser e feliz 2012, com paz nos espíritos apressados e nos corações em dúvida. Muita leveza na passagem.

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