CÉLIA MUSILLI - Fausto, o diabo e a política
O Fausto de Goethe diz a Mefistófeles que ele desejava sexo, dinheiro e poder sobre os outros. Mas isso não significa que ele desejasse estas coisas pelo que elas representavam em si mesmas. O que ele desejava era todo tipo de experiências humanas em seu limite, alegria e infelicidade, para assimilá-las em seu interior, na busca da evolução, do progresso. Só tendo dinheiro, sexo e glória ele experimentaria também no limite as emoções humanas, as tempestades do espírito. Há evidentemente uma diferença entre o objetivo de Fausto e os dos políticos quando vendem a alma ao diabo. Se Fausto quer conhecimento, os políticos passam ao léu de qualquer sabedoria.
O trecho a seguir, mostra como Fausto pede as coisas ao diabo:
"O que preciso e quero é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomparáveis dores,
A volúpia do ódio, o arroubamento
Das sumas aflições. Estou curado
Das sedes do saber; de ora em diante
Às dores todas escancaro estalma.
As sensações da espécie humana em peso,
Quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males" (Fausto, Quadro V, Cena I)
Neste trecho, Fausto deseja a libertação de todos os impulsos e energias humanas reprimidas.
Um dia, depois de experimentar muita dor, Fausto chega ao extremo, mergulha no seu lado mais sombrio e então apanha um frasco de veneno para se matar. Mas, nesta hora, seu quarto inteiro treme, ouvem-se sinos lá fora, o sol se ergue e um coro angelical indica que é Domingo de Páscoa. Os anjos cantam. "Cristo se ergueu do útero da decadência". O frasco de veneno despenca da boca de Fausto e ele se salva. Mas não é, como se pensa, um milagre simplista. O que mexe com ele é outra coisa, são os sons da infância:
"No entanto, eu conheço tão bem esses sons desde a infância
que ainda agora eles me chamam de volta à vida."
Nesta hora de polarização e "bipolarização" política em que sujamos a aura, reflito e volto à infância, é nela - livres do poder, do dinheiro e da glória - que sempre reencontramos a nossa alma leve. Há evidentemente uma diferença entre os objetivos de Fausto e os dos políticos quando vendem a alma ao diabo. Se Fausto quer conhecimento, os políticos passam ao largo de qualquer sabedoria, desejam apenas votos. Neste momento, no caldeirão do diabo, vários nomes cozinham. Podem até sair ganhado o que almejam depois desta sopa de siglas e enxofre, mas dificilmente não terão lá na frente um momento infernal a lhes cobrar discursos e práticas antagônicas. Se eu fosse os políticos, leria Goethe neste momento.
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