Peço perdão aos leitores se hoje não falo de flores. É meu papel falar prioritariamente de arte, bem mais bonita do que menores amarrados nus em postes à luz do dia. Mas a realidade ofusca a luz e se impõe.
Não é de hoje que a imprensa vai mal, jornalistas "endireitados" ou "esquerdizados" estão mais interessados em fabricar torcidas do que informar. Opinião virou peça de autopromoção, marketing da pior espécie e nisso o Paraná tem escola, saíram daqui apresentadores de TV que ensinaram o país a gritar "Cadeiaaa!" como fórmula infalível de justiça. Agora, que os presídios do país viraram massa falida e rojões explodem na cabeça de cinegrafistas, os ecos de "cadeiaaa!" revelam sua inutilidade porque não servem mais a qualquer tipo de justiça mas à desmoralização de instituições tendo em vista que milícias suspeitas estão em ação nas ruas.
Construímos uma tradição de jornalistas espetaculares. Estrelas da mídia, mais preocupados com caras e bocas do que com fatos. "Cadeia" fez escola e na sequência - de terno e gravata - Arnaldo Jabor fez muita bravata na Globo, a mesma empresa que publicou em jornal, esta semana, um editorial que parece vir do tenebroso túnel do tempo da ditadura para explicar as manifestações de rua. Em cima do corpo do cinegrafista da Band que, ao que consta, trabalhava sem equipamentos de segurança, O Globo rosnou grosso para informar que as manifestações de rua são fruto de distorções de militâncias políticas, difamações pela internet, sindicatos de jornalistas desaparelhados, universidades transformadas em centro de doutrinação política. Só faltou evocar a "marcha da família com Deus pela liberdade" e fazer campanha do "ouro pelo bem do Brasil". Tudo em tempo de Copa. Cenário perfeito para o maniqueísmo num drible quase perfeito.
Para piorar, aparece no SBT a comentarista Raquel Sheherazade, uma "fábula da notícia", praticamente afirmando que foi "bem feito" amarrarem um menor de rua nu, ao sol escaldante do Rio de Janeiro, porque ele teria furtado. Coitada da Raquel, não sabe o quanto é ridículo apresentar-se como uma fabricante de "notícias cosméticas" para defender a barbárie. Imaginem: um cara de 15 anos, negro, nu, amarrado a um pelourinho do século 21 num ato endossado por uma apresentadora de TV irresponsável. Dias depois, a "milícia do bem" celebrada como justiceira por La Sheherazade, foi revelada como um bando de 30 rapazes violentos, sendo dois identificados por ficha criminal onde constam "estupro, lesão corporal, furto e ameaça". Resta perguntar a Sheherazade, esta "fábula da notícia", se ela não fica corada além do blush diante da revelação das identidades desses seus "bichinhos de estimação".
Mas os pactos sinistros ainda não foram totalmente revelados. Fecho a coluna, nesta quinta-feira, perguntando ainda quem teria acendido o rojão que matou o cinegrafista da Band. Se alguém estupefato inquirir: "Mas não foi o Caio Silva de Souza, o auxiliar de serviços apontado pela polícia como principal suspeito?" Só posso responder que ainda não sei. Parece que as fotos do Caio não batem com as do homem que acendeu o rojão registradas em imagens gravadas no dia da morte de Santiago Andrade. Caio pode ser um bode expiatório, vivemos tempos obscuros. Corre por aí que parte dos manifestantes recebe R$ 150,00 por participação em passeatas. Resta elucidar quanto foi desembolsado por aquela passeata de um milhão de pessoas em junho de 2013 no Rio. Foram todos pagos? Não há insatisfação real? Tudo não passa de cabresto ideológico? Ficam as perguntas e um fragmento de poema que remete a João Cabral de Melo Neto sobre os Silva de Souza como o Caio. Poetas conseguem ser proféticos.

"E se somos Silvas de Souza / iguais em tudo na vida,/ morremos de morte igual,/ mesma morte silvadesouza:/ que é a morte de que se morre/ de velhice antes dos trinta,/ de polícia antes dos vinte,/ do Estado um pouco por dia."

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