CÉLIA MUSILLI - Era uma vez...um sonho
Talvez por causa do novo filme de Woody Allen sonhei que estava em Paris. Sim, muito melhor que Diadema, Goiânia ou Cuiabá, sonhei que estava em Paris. Como no filme, havia feito uma viagem no tempo. Entrei nos anos 20, numa festa com aquelas melindrosas, artistas talentosos, a fauna noturna e havia um pianista que não era Cole Porter , mas tocava bem.
Devo ter ficado em Paris boa parte da noite. Deu para dançar, tomar champanhe, ver as luzes e, num corte temporal, entrei nos anos 50 e ouvi Edith Piaf cantando Non, Je Ne Regrette Rien: ''Não! Nada de nada.../ Não! Eu não lamento nada...Nem o bem que me fizeram/ Nem o mal - isso tudo me é igual!'', e pensei, ali mesmo no sonho, que não tenho mesmo nada a lamentar, mesmo não conhecendo Paris.
Naquela noite meu anjo da guarda era um andarilho e ainda me levou a Barcelona, com sua gente intrépida, de uma alegria escancarada, com a vida meio retorcida como as obras de Gaudí. O melhor de tudo é a arte de sonhar, imaginar que estamos na terra de Lautrec ou de Miró, ver que as 'galerias' podem estar a céu aberto, nas ruas, sejam em esculturas ou num modo simples de viver que exige desapego, como o do meu anjo andarilho que me leva a lugares que nem conheço e depois me devolve à realidade novinha em folha, pronta a encarar o dia-a-dia com vontade de viajar, ainda que seja em sonhos.
O fato é que nesta quinta-feira, enquanto escrevia a coluna, digitava como se mandasse notícias de um lugar distante, com a sensação de que ainda não acordei e que estão vivas minhas impressões do 'outro mundo'. O outro mundo é o sonho, uma espécie de avesso da gente que vive em cores - raramente sonho em preto-e-branco - e no qual temos as mesmas sensações de quando estamos acordados: sinto cheiros, percebo texturas, ouço música. Vocês também? Se alguém aí se habilita, que me conte os sonhos. Estou convencida que a arte de sonhar melhora nossa qualidade de vida, tanto quanto a água ou o alimento.
Neste ponto, emendo que não são apenas os sonhos de olhos abertos que nos ajudam a viver. Mas todos os tipos de sonhos que nos fazem levantar voos em aviões ou asas para encontrar pessoas e lugares diferentes.
Vou ter que ler um pouco mais o velho Freud para compreender as impressões dos sonhos, saber que mágica é esta de transmutar a realidade, fazendo-nos alcançar outra vida, outro estado de espírito que, às vezes, tem muito a ver com o que planejamos e, às vezes, é uma surpresa total, uma paisagem desconhecida ou apenas ilusões que a gente nem suspeitava que moravam dentro da gente.
O inconsciente tem seu lado triste e traumático, mas tem também seu lado colorido. Nunca sei quando um sobrepuja o outro. Nunca sei que condições nos fazem desembarcar em Paris ou numa cena que queríamos ter esquecido. Imagino que os animais também sonhem, às vezes vejo meu gato sobressaltado com a possibilidade de enfrentar o buldogue aqui na vizinhança ou feliz encontrando a namorada. Ele sonha e se remexe. Mas o melhor do homem é transformar seus sonhos em realidade ou, pelo menos, usufruir das boas coisas que nos trazem os sonhos. De olhos abertos ou fechados, temos a impressão de estar em outra situação e este deslocamento insere-se para mim no rol das coisas mágicas, que me inspiram tanto quanto a realidade em sua face mais feliz.
A capacidade de sonhar talvez seja o que me inspira ou o que me salva. Por isso, hoje decidi escrever sobre os sonhos e percebi que tanto faz que aconteçam ou não aconteçam. O sonho é a primeira narrativa de que temos notícia e uma boa história, ainda que de mentirinha, a gente não pode perder. Por isso, não se inibam e me contem seus sonhos. Contar é dar a eles a chance de ser vida.
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