CÉLIA MUSILLI - Era pássaro e já sabia
Tenho um filho artista, às vezes os tios me olham de soslaio, perguntando intimamente se não vou corrigir um garoto que só pensa em desenhar e tocar violão. Mas como posso corrigir a rota de quem nasceu sinuoso?
Há muito tempo percebo que o mundo, cada vez mais quadrado, deseja caminhar em linhas retas. O politicamente correto tomou conta das pessoas que criam para si e para os outros um ''bem estar coletivo'' sem singularidades, sem particularidades, sem diferenças.
Igualdade é um valor que aprecio para as coisas que dependem de bom senso e respeito. Mas o que seria do mundo se não fosse a transgressão dos ''tortos'', a dessemelhança de uma gente exuberante que, quase sempre, navega contra a maré?
Dante Alighieri foi um grande inimigo do papa. Se não fosse sua singularidade e sua revolta talvez nunca tivesse escrito o grande poema épico ''A Divina Comédia'', uma peça da revolução moderna, escrita inicialmente em latim, depois em italiano, língua que o poeta elegeu e difundiu, colocando-a a favor do ''sacrilégio''.
Ah! O poder da língua. Tanto em suas variações idiomáticas como em sua função básica e anatômica, a língua, este pequeno órgão que escondemos na boca, tem o alcance de um míssil e quando bem focada derruba impérios, ranços e preconceitos.
Através da língua revela-se a engenhosidade das frases, a precisão dos vocábulos, o veneno das ideias, a força dos argumentos. Usemos, portanto, a língua, para explicar que neste mundo as sinuosidades existem para combater as linhas retas, o politicamente correto dos rígidos.
Vamos empunhar canetas e tintas, pandeiros e violões. Sem condenar nossos filhos ao tédio de um mundo sem desenhos, músicas e respiros. Até por isso, prefiro um filho pássaro do que um filho servil, sujeito às regras de um mundo caduco, onde há os que vivem e pastam até a morte, sem um grito, sem um ai, sem um senão, sem um único questionamento aos costumes quadrados, aos padrões sem curvas.
Em dias de repressão e reflexão, me isolo com minhas letras e deixo os pássaros livres na garganta. Até por isso, dia destes um bem-te-vi me visitou e deixou um poema que dedico aos artistas, aos utópicos e aos sinuosos como meu filho Fernão:
Era pássaro
um ato de quase chegar perto
quando me dizem:
''não toca aí, é proibido!''
mas musiquei com as cordas
celebrei com as musas
andei com os anjos tortos
antes os inconfidentes
que os mortos
é tarde para evitar alturas
e não pegar desvãos
eu era pássaro e já sabia
coração
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