A loucura tem aspectos sombrios, faces tristes, lugares mal iluminados. A loucura atravessa a história como a Nau dos Insensatos, o barco que na Renascença levava os insanos para uma viagem sem destino, não se sabia onde ancoravam, se desciam, se voltavam. Assim, a sociedade se livrava do incômodo de ter por perto quem não correspondia aos padrões da "mente sã em corpo são."
Se há um aspecto que provoca minha tristeza em relação ao tratamento dado à loucura é a forma cruel com que milhares de pessoas foram arrancadas do convívio social durante séculos, submetidas a uma espécie de tortura física e psicológica. Se os criminosos passaram por julgamentos, os loucos receberam laudos, carimbos, rótulos e tratamentos que estão longe do que poderia levar à cura.
Lima Barreto, notável escritor brasileiro, foi internado ao longo da vida em hospitais psiquiátricos por causa dos surtos provocados pela bebida. Sim, era alcóolatra, mas seu Diário do Hospício traz linhas de uma lucidez impressionante. Com tocos de lápis e papel improvisado, ele deixou para a história o relato de quem foi submetido à pior forma de tratamento que se pode dar a um homem. Privado de convívio - a não ser aquele permitido dentro dos muros - ele conta episódios de triste memória. No início do século 20 , os doentes era transportados ao hospital em carrocinhas que os deixavam à vista da população. Passavam assim por toda cidade do Rio de Janeiro enfrentando o olhar público, aos solavancos, pelas ruas de paralelepípedos. A rota era conhecida por todos os que os viam passar, sabendo que ali seguia louco. Abertas ao sol e à chuva, as carrocinhas os deixavam vulneráveis e, certa vez, um louco transportado a partir de Manaus chegou morto ao Rio, bicado pelos urubus sem que ninguém durante o trajeto tivesse se dado conta que transportavam não mais uma pessoa, mas sim um cadáver.
Também não há alento em relatos como o da escritora mineira Maura Lopes Cançado, considerada esquizofrênica e internada em hospitais psiquiátricos a partir dos anos 50, apresentando surtos, melhoras e reincidências. Ela fala do lugar frio, do tratamento impessoal, da solidão dos cubículos onde doentes em crise eram trancados em casos extremos. Seu relato no livro Hospício é Deus comove por dar voz a quem perdeu a razão, não podendo, portanto, ser ouvido, a não ser pela escrita, este território que tudo acata e por onde transitam sem culpas a ficção e a realidade.
Caso semelhante é o de Arthur Bispo do Rosário que "falou" através de seu trabalho, hoje considerado arte, passando seus pensamentos, anseios e crenças para a "escrita" dos bordados que perduram como um legado da liberdade de expressão em condições insólitas.
Estas vozes são poucas se comparadas às das multidões silenciadas naquilo que significou um verdadeiro apartheid pelo aspecto psíquico que transforma o louco numa ameaça permanente.
Há pouco mais de duas décadas, o tratamento antimanicomial trouxe as pessoas com doenças mentais de volta ao convívio social. Decerto, a legislação há de ser afinada às necessidades, mais leitos devem ser oferecidos a quem precisa de cuidados, mas um novo olhar inaugura um tempo do qual possivelmente não vamos nos envergonhar. Nos aproximamos das mentes que revelam, mais que a insanidade, nossos aspectos sombrios, nossos pontos obscuros, às vezes iluminados por uma criatividade que nos aproxima do "humano, demasiadamente humano" que Nietzsche professava, ele mesmo um gênio que oscilava entre a razão e a loucura. A história nos mostra que o melhor de nós nem sempre caminha por linhas retas. Há curvas, recônditos, obstáculos, sombras e um clamor de liberdade que salta as grades da mente, formando trajetórias inusitadas. Não faltam casos assim na história, apesar da triste memória.

mockup