CÉLIA MUSILLI - Entidades transeuntes
Não pretendia voltar à biografia de Paulo Leminski por Domingos Pellegrini. Mas por uma sina, conheço Pellegrini há uns 30 anos, li alguns de seus livros, e com Leminski estive algumas vezes, além de apreciar sua poesia. São dois autores importantes.
Não gosto de falar do que não conheço, nem costumo comentar o que não li. Então, fiz uma seleção de trechos do livro "Passeando por Leminski" biografia não autorizada que Pellegrini distribuiu pela internet, pulando o muro das proibições que assombram a literatura nacional para dar uma amostra do que se trata. Li o livro em algumas horas, tão logo o recebi por e-mail, sabendo que ali se desencadeava uma polêmica importante.
A obra me tomou como uma entidade. Penso que às vezes somos mesmo tomados para dizer coisas antes que elas se transformem em passado. O tempo de falar de Leminski e Pellegrini é agora. Por isso, deixei baixar a entidade e selecionei trechos do livro para que a gente não fique discutindo o que não sabe, opinando sobre o que não leu.
Nos trechos reuni os temas que considero importantes acerca de Leminski e sua esfuziante personalidade: poesia, estética, religião, arte, morte, vida. Evitei a política, que daria um capítulo à parte, porque a considero maçante, embora Pellegrini a cerque com informações preciosas, desde a Grécia até os soviéticos.
Depois de cumprir minha função de "entidade paranaense", de transeunte entre Londrina e Curitiba, de ouvinte de Polaco e Pé Vermelho, me despeço da obra que merecia ser publicada em papel porque é objeto imensamente afetivo. Nunca vou entender por que não autorizaram sua publicação, trata-se de um livro delicado. Se optássemos por "biografias limpinhas", teríamos que omitir que Hemingway bebia, que Picasso era mulherengo, que Freud cheirava cocaína.
Assim, criticamente, desencorporo a entidade que me fez escrever sobre PellegriniLeminski, autores que se misturam neste livro alquimia.
Seguem trechos:
- Mas não vou morrer de tanto me matar, não, eu vou morrer de tanto viver!
(...)
Depois, folheando livros de poesia de Leminski, Pé Vermelho perceberá que a fascinação de Leminski pelas ações guerreiras suicidas é evidência da sua estratégia de, com a própria morte, criar uma lenda. Como Kerouac, como Rimbaud, como Mallarmé, como... Jesus! Em vez de mártir dos pobres e oprimidos, mártir da arte, ritualizando em cirrose, dose a dose, a dedicação suicida à sina da criação.
A luz sobre essa estratégia bate em Pé Vermelho ao ver, na página 137 de Caprichos e Relaxos, o foto-poema de Leminski vestido com quimono, prancheta de escrita nas mãos, acima do trocadilho KAMI QUASE. Na página 136, outro poema é sintomático: apagar-me / diluir-me / desmanchar-me / até que depois / de mim / de nós / de tudo / não reste mais / que o charme.
(...)
... Pé Vermelho percebe nitidamente: que só com Paulo Leminski manteve conversas tão entretentes e intensas, o único intelectual com quem podia conversar de ikebana a tae-kon-do, de haicai e heráldica, de política à poesia, de arte da guerra à guerra dos egos nas artes, o Leminski egocêntrico que, porém, esquecia de si ao falar de algum ídolo, tomado de paixão feito moinho de braços e bigodões a se agitar ao vento do entusiasmo pela diversidade, pela genialidade, pela excentricidade, como também pela simplicidade, para ele a expressão mais fina da beleza, como disse um dia com olhos úmidos.
(...)
Amigo é pra essas coisas, Polaco, ou melhor: amigo não é quem quer te agradar ou te esconder coisas desagradáveis; amigo é quem diz o que é preciso.
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