Primeiro entrei em luta com o Peixe Solúvel, texto em prosa poética de André Breton. Inútil, sabia que a tentativa de compreender racionalmente um texto surrealista era como capturar espuma ou moldar as nuvens.
Ainda assim, perguntei a um amigo: "Qual é a desse texto que me pareceu difícil?". E Claudio Willer recomendou exercitar-me como os alunos de uma de suas oficinas a quem estimulou procurar o peixe solúvel no Jardim da Luz. Apreciei a criatividade da resposta, como quem assiste a um filme.
Estava na página 95, de um texto que vai da 69 a 140, no volume dos Manifestos Surrealistas, traduzidos por Sérgio Pachá. Inquieta com a ideia de um peixe que se dissolve quando tentamos pegá-lo, fui procurar informações com os especialistas, antes de prosseguir a leitura.
O historiador de arte Jorge Colli, em artigo de 2001 à Folha de S.Paulo, sobre uma importante exposição surrealista que veio ao Brasil, abre o texto falando do Peixe Solúvel, mas trata-se só de um esplêndido primeiro parágrafo, onde cita frases do próprio Breton - "O subterrâneo em cuja entrada fica uma pedra tumular com meu nome inscrito é o subterrâneo onde melhor chove" - abrindo depois a lente grande angular para a importância que a fotografia e o cinema têm para o surrealismo. Neste ponto, voltei à minha pesquisa sobre a obra de Maura Lopes Cançado, que analisei levando em conta um ponto de vista surreal. Notei que acertei o passo quando me decidi a investigar a relevância de "olhar e ser olhada" que ela confere a seus contos e relatos, onde há sempre elementos em cena, senão ela própria, ainda que camuflada como uma de suas personagens insanas, criativas e, em última instância, artísticas. Maura e suas personagens, suas cenas, pontos para onde os olhares sempre convergem cinematograficamente.
De surrealismos aos surrealistas, caminhei com o texto, com o peixe solúvel me dando rabadas na mente, quando não entrava em meu corpo e eu me punha a imaginar suas cores dissolvidas no meu sangue como um desses sucos de lata que bebemos no verão como se estivéssemos no Caribe. Todas essas ideias foram suscitadas enquanto lia o texto, como quem embarca numa viagem, antes, numa linguagem, única forma que encontrei para persistir na leitura em que personagens, lugares e emoções se confundem numa narrativa de sonho, porém de forma até mais excêntrica porque é o sonho transformado em literatura livre. Desisti da racionalidade para fruir tudo isso. Precisava realmente mergulhar para ver os peixes em seu habitat, num mundo em que palavras se tornam subaquáticas, ou mais que isso, líquidas. Neste sentido a experiência de ler palavras líquidas, sem que eu possa detê-las ou conservá-las, foi muito forte.
Tradutor de Breton no Brasil, Sérgio Pachá me disse que verter para o português Manifestos do Surrealismo "foi um dos trabalhos mais laboriosos de sua vida", juntamente com tradução de "A Vida De Agrícola, de Tácito, no primeiro ano do curso clássico no Colégio Anchieta", no Rio de Janeiro.
Este trabalho laborioso estende-se às notas da tradução onde ele dá explicações linguísticas e culturais sobre o Peixe Solúvel, escrito em 1924 e traduzido no Brasil em 2001 para a editora Nau.
De peixe em peixe, de nota em nota, percebi ainda o quanto este texto de Breton é sensual, ele fala de muitas mulheres, elas estão em toda parte e, talvez, por isso eu tenha me identificado com ele, embora não o compreenda inteiramente. Breton nos leva a lugares secretos, nos convida a uma viagem íntima, e o faz em linguagem fragmentada, criando uma série de cenas, que às vezes não têm nada a ver uma com a outra. Uma descontinuidade constante, outra característica do surrealismo, dentro da proposta de libertar a linguagem. Ao fim do texto parei de lutar. O Peixe Solúvel, como as músicas bonitas, os filmes mais sensíveis, deve ser lido, acima de tudo, pela sua beleza que, segundo Breton, "será convulsiva ou não será."

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