Muitos autores já usaram a loucura como tema. Fernando Sabino escreveu "O Grande Mentecapto", Guimarães Rosa o conto "Sorocô, sua mãe, sua filha" e Carlos Drummond de Andrade "A Doida", outro conto, só para ficar em três exemplos.
Uma coisa é falar dos loucos, outra quando os loucos falam por si mesmos, a partir de seu próprio universo, legitimando na literatura a voz de quem vive apartado. Na literatura brasileira contemporânea temos dois casos, entre outros, de quem falou da loucura por dentro, na condição de autoras: Maura Lopes Cançado e Stela do Patrocínio.
Maura escreveu dois livros, um deles, Hospício é Deus, é uma mistura de memórias de infância e diário, onde ela fala de suas vivências no manicômio. Outro é o livro de contos O Sofredor do Ver, onde ela atinge o máximo de sua criação literária. Quando me interessei pela obra de Maura, achei que encontraria em seu diário uma escrita delirante e queria analisá-la pela ótica do desvario. Me surpreendi ao encontrar um texto lógico, pontuado por poesia e devaneios em algumas passagens, mas se trata, sem dúvida, de uma escrita racional, onde ela denuncia as condições desumanas do hospício. À sua literatura de denúncia soma-se o desabafo, a impressão é que Maura suportou melhor o internamento graças à escrita.
O livro nos pega pela sensibilidade e a revolta em relação ao sofrimento do louco, muitas vezes recebendo uma espécie de punição pela doença. Na visão de Maura, o louco em vez de ser tratado, muitas vezes é castigado, tendo em vista o ambiente em que ela viveu nos anos 50 num dos maiores hospitais psiquiátricos do Rio de Janeiro.
Já seu livro de contos é uma viagem que nos encanta através de doze textos nos quais sua verve ficcionista aflora, traduzindo um grande momento de sua literatura. Maura Lopes Cançado é uma autora ainda a ser descoberta pelo leitor comum, seu diário é encontrado nos sebos com relativa facilidade, já seu livro de contos é obra rara.
Na contramão da escrita lógica de Maura em seu diário, vamos encontrar Stela do Patrocínio, cujo principal traço psicótico era seu "falatório". Stela passava os dias falando sem parar, mas trazia no seu discurso um alto teor poético que não passou despercebido. Sua fala foi gravada em fitas cassete em 1962 e, quinze anos mais tarde, organizada e transformada no livro "Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome" por Viviane Moser. Sua escrita remete ao mais puro delírio, a condição que os poetas atingem quando tomados por um "deus" que dá às coisas um novo sentido. Uma coisa que impressiona em Stela do Patrocínio é a forma como inventa e reinventa seu próprio ser, numa linguagem que só atinge quem vive "a dois metros do chão", como dizia Arthur Bispo do Rosário. Deixo aqui o falatório de Stela, uma reflexão dolorida que só é possível a quem vê a vida do alto, como se vivesse numa nave ou num aeroplano:

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo/ Eu era ar, espaço vazio, tempo/ E gazes puro, assim, ó, espaço vazio, ó/ Eu não tinha formação/ Não tinha formatura/ Não tinha onde fazer cabeça/ Fazer braço, fazer corpo/ Fazer orelha, fazer nariz/ Fazer céu da boca, fazer falatório/ Fazer músculo, fazer dente/ Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas/ Fazer cabeça, pensar em alguma coisa/ Ser útil, inteligente, ser raciocínio/ Não tinha onde tirar nada disso/ Eu era espaço vazio puro

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