Pensamos em Franz Kafka evocando sempre a imagem do grande escritor. Mas nos seus livros nos deparamos com as fragilidades que ele mesmo evoca, como um exercício que revela uma vida na contramão da felicidade. Além do ambiente cultural fecundo, sua dedicação à literatura parece ser a resposta aos apuros e à dor com que se deparava, forçando-o a um diálogo interno que resultaria numa das obras mais expressivas do século 20.
Fazendo constante autocrítica, ele considerava que poucas de suas obras tinham valor, entre elas ''Um artista da fome'' e ''Na colônia penal''. A última, escrita em 1914, ele queria publicar junto com ''A metamorfose'' - que sairia em 1915, tornando-se seu livro mais conhecido - e ''O Veredicto'', formando um volume que chamaria ''Castigos'', mas seu editor recusou e os textos foram publicados aos poucos.
Ao morrer em 1924, aos 41 anos, Kafka deixou inéditos e alguns textos inacabados, mas recomendou ao seu amigo e testamenteiro Max Brod que destruísse todos os manuscritos. Para nossa sorte, Brod preferiu publicar as obras, assim, chegaram ao público, entre outras, ''O processo'', ''O castelo'', ''Amerika'' e ''Carta ao pai'', documento pungente de uma vida de aflições.
Mãe e madura, releio ''Carta ao pai'' consternada com as humilhações que Kafka relata, submetido por um progenitor a uma tirania em minúcias, pingando sobre ele o orgulho a conta-gotas. Eu, que tive um pai maravilhoso, que sempre nos contava com magia episódios que lhe ''calaram fundo'', fico impressionada com algumas passagens que me trazem um Kafka pequeno e franzino, exposto a atitudes que me dão vontade de tomá-lo pela mão. Interessante observar em suas fotografias que ele, humilhado e grandioso, conservou o sorriso do menino que tentaram matar dentro dele. Segue um trecho de ''Carta ao pai'' que mostra a opressão do adulto sobre a criança. Uma opressão que silenciosamente pontua o cotidiano de muitos meninos que não são Kafka.

''...eu já estava esmagado pela simples materialidade de teu corpo. Recordo-me, por exemplo, de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu magro, fraco, franzino, tu forte, grande, possante. Já na cabine eu me sentia miserável e na realidade não apenas diante de ti, mas diante do mundo inteiro, pois para mim tu eras a medida de todas as coisas. Mas quando saíamos da cabine passando pelas pessoas, eu levado pela tua mão, um pequeno esqueleto, inseguro, de pés descalços sobre as pranchas de madeira, com medo da água, incapaz de acompanhar teus movimentos natatórios, que com boas intenções, mas para minha profunda vergonha, na realidade, não parava de me mostrar; nestes momentos eu ficava muito desesperado e todas as minhas experiências ruins em todas as áreas se reuniam, concordantes, umas às outras de maneira grandiosa. Me sentia melhor quando tu algumas vezes te despias primeiro e eu ficava sozinho, podendo adiar a vergonha da aparição pública até o momento em que tu vinhas ver o que estava acontecendo e me tiravas da cabine.''

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