Ontem Oscar Niemeyer fez 100 anos. Para mim, trata-se da celebração da melhor arquitetura viva. O que seria da nossa paisagem urbana sem as suas curvas? O que seria do Planalto Central sem suas soberbas linhas de concreto, insígnias da modernidade plantadas em território criativo? Ah! Que cabeças têm este País e quantas idéias. Quando penso em Villa-Lobos e Oswald, em Drummond e Hilda Hilst, em Tom Jobim e Arrigo Barnabé, em Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas cogito: ''Meu Deus, quantos Pelés com bolas imaginárias, fazendo jogadas de levantar a torcida!''

Pena que nem todos tenham olhos para ver talentos. Pensam que somos um país pobre de idéias e de ideais, esquecem da nossa face de criação ardente e antropofágica, só lembram das mazelas e sonham com as conquistas da terra do Tio Sam, listras vermelhas em vez do gritante verde-amarelo, assanhado estandarte que deveríamos carregar de cabeça erguida. Por que imitar o sotaque do Texas quando temos a Bahia? Pra que sonhar hambúrguer se temos arroz, feijão, bife e mandioca frita? Que tempero, meu Deus. E quanta tapioca, feijoada, moqueca. Quantas redes nos desenhos de Aldemir Martins. Quantas mulatas nas telas eternas de Di Cavalcanti. Quantos brasis em guaches, aguadas, graffitis e arquiteturas.

Os 100 anos de Niemeyer me fazem reverenciar o Brasil, como um monumento. Porque, como eu ia dizendo, o que seria da nossa paisagem sem as linhas que rompem o tédio retilíneo das construções urbanas? O que seria de Brasília sem a elegância concreta do Planalto, espelhos d'água, curvas que parecem o vôo de uma arara gigante. O que seria de São Paulo sem o Memorial da América Latina, estupenda forma rompendo o espaço como um grito de liberdade. O que seria de São Paulo sem o Copan, onde o vento canta e desliza nas ondas de uma arquitetura que hoje abriga um condomínio de diversidades: a dona da lanchonete, os artistas principiantes, os bolivianos que deixaram La Paz pela confusão da capital desvairada. Convulsão de zelos e desmazelos, poesia caótica que sai dos profetas embriagados e dos profetas engravatados. Obrigada Caetano!

Penso Niemeyer e desvendo o Brasil. Caldeirão onde ferve uma cultura que até queima de tão calorosa. Onde explodem ritmos arquitetônicos, música de primeira classe, arte generosa vendida em esquinas ou exportada para os museus do mundo. Tarsila e Mestre Vitalino. Leminski e Suassuna. Cartola e Lenine. Samba, forró, coco, mangue beat, maxixe e xote. Rock rascante como a cuíca. Batida concretista e o cordel dos encantados.

Penso Niemeyer e lembro da cúpula rendada da Catedral de Brasília, explosão de emaranhada criatividade. Penso em Niemeyer e lembro do Museu de Arte Moderna de Niterói, navio ancorado no mar, tendo ao fundo a baía de Guanabara, cartão postado na própria paisagem. Azul, verde e branco. Arte contemporânea de pedra e areia, mostrando que o Brasil já desembarcou no futuro e nós, às vezes, nem nos damos conta. Continuamos de cabeças baixas, chutando tampinhas, enquanto o sonho, concretamente, ergue no espaço um País que tem tudo para ser feliz. Talento sobra, idéias se multiplicam, a poesia transborda no horizonte.
É tempo de celebrar o dia e o mestre das claridades. Comunista de carteirinha, velho senhor que não verga a medula. Feliz aniversário Oscar da Criação Niemeyer! (Crônica dedicada a André Galvão de França, que não se cansa de reverenciar o Brasil múltiplo.)


[email protected]

mockup