Em tempo de manifestações políticas nossas raízes emergem. Tenho três avós italianos, uma só avó brasileira, descendente de índios. A família de meu avô paterno tem histórias incríveis. Um dos seus parentes matou um guarda de Mussolini num confronto de rua e teve que fugir clandestinamente num navio para a Inglaterra. Não à toa, chamava-se Marino, se não me falha a memória.
Meu avô paterno, Nunzio, veio para o Brasil numa das primeiras levas de imigrantes italianos. Chegou ao Porto de Santos e foi trabalhar nas plantações de café no interior de São Paulo. No seu passaporte havia uma identificação profissional: artista. Tenho orgulho disso, mas creio que seja uma referência à sua habilidade como ourives. Ensinou a profissão de relojoeiro a seus dois filhos: Antonio, meu pai, e Benedito, meu tio.
Meu pai foi um simpatizante do comunismo, não gostava dos militares da chamada revolução de 64, os almoços lá em casa, na fase da ditadura, eram regados a discursos políticos contra o golpe. Vivemos anos assim, entre os noticiários de rádio, TV e os discursos de meu pai. Tenho orgulho da sua consciência e das suas ideias.
Parte da família de meu pai não ficou no Brasil, emigrou para a Argentina. Há uns quatro anos tive uma grata surpresa ao descobrir entre minhas parentas a anarquista Carolina Muzilli, costureira de profissão, jornalista por escolha e paixão. Por erro de cartorários, parte da minha família tem o nome grafado com "z" e parte com "s". Carolina pertence à ala da família que se radicou na Argentina na segunda metade do século 19, perto dos "nocevento". Nasceu em 1889 em Buenos Aires. Sei que participava de movimentos políticos, agremiações socialistas e que lutava, principalmente, pelos direitos femininos. Escreveu também um ensaio criticando a caridade da Santa Madre Igreja e dos endinheirados: "Sociedad de la Beneficiencia: la caridade que hacian los setores adinerados y eclesiales, tradicional y patriótico". Tinha toda razão quando escreveu isso, se considerássemos os rumos da beneficência dos "adinerados", os pobres estariam condenados a nunca sair do lugar. Sua origem é o movimento anarquista, mais tarde ajudou a formar o Partido Socialista Argentino.
Carolina morreu jovem, aos 28 anos, vítima de tuberculose, em 1917. Antes, criou com poucos recursos uma publicação política, a "Tribuna Femenina". Oswaldo Norberto Ferreira defendeu tese na Unicamp sobre a obra dessa mulher excepcional. Se conto isso, nestes tempos em que nossas escolhas são permeadas por nossas concepções políticas, é também para responder às críticas de quem fala em "anarquismo de classe média" ou, mais pejorativamente, em "anarquismo de butique" para se referir a quem faz no momento uma opção diferente da mesmice, tentando avançar entre acertos e erros, mas com cidadania.
É sempre bom lembrar que o anarquismo tem uma tradição na América, incluindo a América do Sul. O anarquismo chegou aqui de navio, antes dos "novecento", como a "peste" e a luz. Então, esta convicção política, muito além de um capricho ou "novidade de butique", tem história.

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