Fui deitar-me à meia-noite, antes peguei a revista literária Celuzlose - cujo número 3 acaba de ser lançado – e comecei a ler o ensaio "Jack Keroauc: a poesia, a música e a fala de Deus", de Claudio Willer. Fiquei completamente absorta na leitura. O ensaio é magnífico, me despertou completamente. Passava de 1h30 quando as ideias ainda ressoavam na minha cabeça. Tantas coisas me pegaram. No início a questão da "voz" emitida pelo sagrado, questão crucial na literatura ocidental a partir do judaísmo, do monoteísmo, da Bíblia, cujos escribas nunca veem Deus, apenas o ouvem, ampliando a importância da sonoridade sobre a visão, mantendo assim também o enigma da Imagem.
Todo ensaio é construído sobre a equivalência da oralidade e a escrita. Ou a supremacia da sonoridade na escrita de Kerouac que fazia textos como quem faz música, não importa se essa música é o tambor tribal ou o jazz. A musicalidade na obra literária de Kerouac também inspirou homenagens de artistas que o celebraram em canções belíssimas como Hit the Road Jack, composta por Ray Charles, lembrando o livro On the Road (1957), a letra diz: Hit the road, Jack and don't you come back no more, more, no more, no more. Ou traduzindo: Caia na estrada Jack e não volte nunca mais, nunca mais, nunca mais.
Em 2009, o músico Jay Farrar também se juntou a Ben Gibbard, da banda Death Cab for Cutie, para fazer um álbum em homenagem ao escritor beat chamado "One fast move or I'm gone: Kerouac's Big Sur" (Uma manobra rápida ou vou embora: o Big Sur de Jack Kerouac). Uma referência ao período que o escritor passou na região de Big Sur, na Califórnia.
Segundo Willer, em seus textos Kerouac sempre colocou o som à frente do sentido, "o que o torna um autor difícil (..).e mal assimilado pelos críticos (...) porque ele ouve outra língua e se expressa numa mistura de joual (seu dialeto de origem), espanhol e inglês."
No ensaio, Willer faz a aproximação da sonoridade de seus textos com o sagrado e desemboca na "iluminação" pela poesia, costurando ideias de Platão à literatura Beat de um jeito que só pode mesmo nos tirar o sono. Termina com a "iluminação auditiva" de Allen Gisnberg ao ler um poema de William Blake proclamando que viu Deus. O que impressiona é também a forma como o ensaísta capta e costura as informações de modo que o final do texto seja apoteótico, senão apocalíptico.
Um fragmento de Keroauc que me pegou é um que Willer insere para explicar as referências a vários autores, de Melville, passando por Whitman até chegar ao monólogo do final de Ulisses, de James Joyce. Se Kerouac também viu Deus quando escreveu isso não sei, mas trata-se, seguramente, de um dos mais belos trechos da literatura de que tenho notícia, de um livro que ainda não li .
Reproduzo aqui o trecho de "Visões de Cody", de Jack Keroauc, para ter certeza que isso existe:

"(...) o Rumor das Águas, a Noite, o Vento à Noite e o Toque dos Lábios pelos Campos à Noite, o Monte Leitoso e dos Amantes na Grama, Eu e Ela, Montados Um em Cima do Outro na Grama, Debaixo da Macieira, Debaixo das Nuvens que Encobrem a Lua, no Vasto Mundo, a Estrela Úmida da B... Dela, o Universo Derretendo as Laterais do Céu, a Sensação de Calor, a Estrela Úmida entre as Coxas Dela, a Enfiada Quente, o Movimento na Grama, o Rataplã das Pernas, as Roupas Quentes, os Mosquitos Sedentos, as Lágrimas, o Tremor, as Mordidas, as Línguas, os Gestos, os Gemidos, o Movimento, o Embalo, a Batida, Ah, Meu Deus, Meu Deus Está Vindo, Está Vindo e Vem, Duas, Três Vezes."

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