CÉLIA MUSILLI - Deus é um lugar dentro de nós
Deus está na nossa origem, na nossa infância, desde quando começamos a querer compreender o que é o céu e a terra e nos explicam que tudo o que está aí foi criado por Ele. Esta será ao longo da vida a resposta mais completa para momentos tão delicados quanto nossa pergunta de criança.
Conheci Deus de muitas maneiras, atribuí a ele rostos diferentes. O primeiro Deus foi mesmo aquela de barbas brancas e voz profunda que ensinou os Dez Mandamentos. Depois vislumbrei outros rostos e outras formas de fé. Suspensa na espiritualidade, vi Deus como aquele que enviou seu Filho com um dos ensinamentos mais bonitos que conheço: ''Amai-vos uns aos outros''. Se há na fé cristã uma coisa que me toca é a generosidade, este acolhimento dos semelhantes, não fazendo distinção entre o irmão de sangue e o desconhecido. As palavras de Cristo me tocam como um poema: ''Amai-vos uns aos outros''.
Também vi o Deus de outras culturas e das tribos. Imaginei Tupã caindo como chuva nas aldeias, ouvi cantos de orixás na religião que dança, propondo giros e cores. Branco para Oxalá, vermelho para Iansã, azul e dourado para a doçura de Oxum. Valei-nos, deuses africanos, pelo mistério das pulsões de vida e de morte.
Outras vezes vi os deuses hindus, a sagrada trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. O primeiro é o alvo, o segundo, com seus quatro braços, me acolhe pelo próprio sentido do seu nome que significa ''tudo'', o terceiro aparece como o deus que destrói para reconstruir, indicando que todas as coisas se transformam, como a minha fé.
Também visitei Buda e lhe pedi licença para compreender uma verdade: ''A dor só termina com o fim do desejo'' e meditei sobre isso, limpando da mente resquícios do querer que voltaram depois, mostrando-me que a evolução é um caminho que leva a uma montanha, que deve ser transposta com muito esforço porque ela tem o tamanho do desejo.
Se visitei tantos deuses e experimentei tantas formas de fé é porque como todo mundo preciso de proteção, preciso do maná no cotidiano, nas pequenas e nas grandes lutas. Preciso de um lugar também para a celebração, porque se há um dia de dor, há um dia de canto, e percebo que Deus cabe em toda parte porque está no lugar da pergunta e da resposta, mesmo quando achamos que não precisamos mais da sua imagem.
Nesta manhã, enquanto pensava numa forma de abordar um assunto tão complexo, recebi a notícia do falecimento da minha tia Lourdes, uma pessoa de fé que, entre outras delicadezas, bordou a roupa de batismo dos meus filhos: dois barquinhos saindo para a vida. Então, meu Deus de muitos rostos subitamente tomou a forma de uma fotografia antiga, de um álbum de família onde estão todos os meus afetos e revistei o Deus da minha infância, da minha raiz, da minha primeira pergunta e identifiquei um local de conforto onde haveria um vazio, caso Ele não existisse. Foi assim que descobri que Deus é um lugar, uma paisagem para onde retornamos. É para lá que vamos na vida e na morte, na tristeza e na alegria quando a fé nos leva à outra margem, à margem do interior profundo, um espaço ecumênico dentro de nós.
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