CÉLIA MUSILLI - Declaração de amor ao corpo
Que grande lição é o corpo. Digo sempre que ele é a prova concreta de que vivo. Passo as unhas na pele e sinto arrepios. Cruzo as pernas e as veias pulsam para dizer que tenho sangue e ele corre, sem admitir obstáculos. Tudo no corpo existe em fluxos desde o seu ponto de partida. Desde que nos abrimos em flor, em pés, em mãos, em tronco que se sustenta na vertical, horizontalizando-se quando queremos adormecer ou, simplesmente, ficarmos quietos, sem espasmos.
É deitada, com os olhos no teto que faço a pausa do dia, deixando os pensamentos passarem como nuvens sobre meu corpo. Quando os sopro - porque pensamentos têm asas - minha boca se movimenta em círculo, perfeito botão que ainda articula palavras e beija lembranças. Quantas memórias de beijos cabem em nossas bocas? Haverá no fim uma conta mágica saturada de desejos?
Meu corpo vem me lembrar que a vida segue em fluxos. E uma prova da vida está em minhas mãos, onde há marcas de anéis e de alianças. Unhas pintadas, articulações que não se cansam de escrever, registrando acontecimentos para atestar que é tudo verdade.
Mas gosto mesmo é de desenhar abraços, fechando meu corpo sobre alguém como quem protege a casa e, nesta casa, os filhos. Neste momento há o cheiro dos cabelos, a maciez dos fios, rostos que se tocam como uma imagem dupla, feita da pele onde se colam os cílios. Quando eles se desgrudam, vejo a segunda parte do abraço, que é o abraço do olhar, de quem se perde dentro do outro. Porque ver e, mais que ver, enxergar é outro milagre do corpo. E ainda há sorrisos, choros, emoções que vazam nas faces, moradas de expressões legítimas.
Quanta natureza há no corpo. Há fogo e água, sol e tempestade. Rios que brotam e secam. Montanhas que se levantam, caminhos sinuosos, estradas que se bifurcam. Há também o que sente o corpo. Emoções que nos fazem levitar, sustos que nos fazem grudar os dois pés no chão, cravando-se como uma raiz que busca seu lugar no mundo.
O homem quer um lugar no mundo e a prova máxima de sua existência é o corpo. Estranho mecanismo de fibras elásticas, ossos que se articulam, nervos que se desdobram. Tudo para lembrar que grande lição é o corpo. Uma lição flexível porque ele se verga sob os pesos, ele se verga sob as dúvidas e, ainda assim, quando é preciso, se sustenta ereto como um guerreiro onde cabem a flecha e o arco.
É nesta morada de mil e um sentidos que protegemos nossa consciência, ao mesmo tempo em que nos entregamos à vida, inscrevendo a aventura de pertencer a um espaço e a um tempo.
Parceiro de décadas que nasce, cresce, fenece, o corpo tem a dignidade de quem cumpre o papel de demonstrar que estamos vivos, senão para a eternidade, para os momentos sucessivos em que usufruímos das dádivas da existência.
Por isto, declaro meu amor ao corpo, instrumento com que me expresso em gestos transbordantes e sentimentos íntimos, como se duas paisagens coexistissem por dentro e por fora da máquina mais incrível de quem se tem notícia. Uma máquina que desperta, adormece, se mexe e, ainda por cima, se multiplica.
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