A existência da flor é um milagre Ela vem das profundezas, supera obstáculos, ultrapassa mundos de insetos, condensa seivas, carrega perfumes para, enfim, eclodir como um excesso de beleza sem que ninguém peça ou impeça
Uma flor surgiu no meu canteiro É de um lilás profundo, esbanja o luxo de parecer veludo, é feminina nas formas, no conteúdo é andrógina, une androceu e gineceu, guardando pequenos óvulos para serem polinizados
A flor faz um caminho difícil, necessita da umidade mas não resiste ao seu excesso Assim, com uma medida de sede e outra de saciedade, se equipara ao amor, equilibrando-se entre o mais e o menos Amor de menos morre, definha, amor demais enjoa ou ultrapassa os limites Assim, aprende-se com a flor que é preciso medir as forças, sendo que de um lado e de outro há sempre um risco
A flor luta para se multiplicar e no seu ciclo perfeito existe e enfeita Sai da semente como um projeto que acompanha toda a estrutura da planta até despontar na haste, provocando o encanto dos que a encontram Observando minha flor de veludo, vi que o lilás é matizado, claros e escuros como quem procura a proporção exata Tem um perfume suave, não é ostensiva como um jasmim, nem inodora a ponto de não parecer que é flor Flores têm cheiros e em determinadas épocas inundam lugares só com seus aromas, sumidas entre as folhas, escondidas em árvores, brincam de fazer mágica em seu reino
Os botânicos dizem que a fase mais crítica da planta é quando elas florescem, porque toda energia é direcionada para que isso se realize Para ela converge todo o esforço da planta, como quando nos ocupamos das realizações importantes sem poder errar, porque como as flores, certas coisas só acontecem uma vez, não existe uma segunda chance
Ainda assim, com esta completude, as flores correm o risco de serem incompreendidas, algumas são despetaladas, pisoteadas, ignoradas na sua função Há flores ainda que irrompem das pedras e nem sabemos como conseguem contornar veios de granito, mas respiram em espaços exíguos e vencem a pedra com sutileza e teimosia
A flor mais teimosa que já vi nasceu no asfalto, como no poema de Drummond Venceu a aridez, a dureza e, mais do que tudo, o cotidiano, como uma pessoa que sai por aí enfrentando o que tem pela frente Neste sentido, as flores são cheias de humanidade, embora mais frágeis e mais breves, lutam contra a adversidade e pela sobrevivência em tempo curtíssimo Em vez de anos, vivem apenas dias, cumprindo à perfeição o seu papel de preservar a poesia entre as estações Os deuses bem que podiam nos ajudar a ser menos pedra e mais flor Como no amor, a beleza importa mais que a eternidade
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