CÉLIA MUSILLI - Dai a César o que é de César
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de maio de 2013
Servatis a periculum, servatis a maleficum.
Retomo o latim para o esconjuro do que é maléfico, embora venha travestido de boas intenções. Rezo pela expulsão do preconceito, pelo exorcismo das pessoas de costas quentes e corações frios que seduzem os incautos que lhes dão os dízimos, décimos, centésimos, milésimos e fundos.
As portas do céu não se abrem ao tilintar de moedas, ao shopping da fé, ao capitalismo religioso, a igrejas falsificadas como uísque do Paraguai bafejado em nome de Deus como quem fala a ouvidos que se fecham em vez de se abrirem à verdadeira Palavra.
Servatis a periculum, servatis a maleficum.
Lembro-me de Cristo expulsando os vendilhões do templo e penso que séculos mais tarde eles estão todos de volta com suas ações insanas, sua obra que corrompe, seu cérebro que atrofia os inocentes, suas palavras que contrariam a bênção luminosa dos que não rezam a cifrões nem a bezerros de ouro.
Eles berram do seu púlpito ardiloso, onde crianças e viúvas esperam o milagre que não existe e sua profecia brota da ilusão cavando o perigo da miséria alheia, o engano que sabota a liberdade do próximo.
Servatis a periculum, servatis a maleficum.
Na contrapartida, nossa glória é a arte, a criação e a cultura, o escândalo que revela os deuses nus, sem nada a esconder como quem ergue templos que aprisionam a felicidade. Maleficum, seu nome é a epígrafe da Idade Mídia, o slogan da religião publicitária et in saecula saeculorum.
Servatis a periculum, servatis a maleficum.
Que os homossexuais mortos pela intolerância e os bebês abortados a tesoura com as mães sem anestesia, voltem da sua dor para ensinar que o humano não se trata com punição, mas compreensão, e que o amor é a única linguagem capaz de unir o mundo. Coisa que alguns religiosos desconhecem porque contam cédulas em vez de células, ungindo a angústia do mundo com o medo e a ameaça.
Servatis a periculum, servatis a maleficum.
Diante de tanta extorsão e abuso, diante da confusão que troca as coisas do espírito pelo mundo da matéria, criando-se espetáculos no lugar dos cultos, só me resta o conjuro em nome da legião de anjos que tiram a espada e matam os dragões avistados nas tribunas para todo o sempre, enquanto anarquistas, bichas, negros e mulheres gritam em coro através dos séculos: Evoé!
Nosso Deus é a alegria! Nada mais bíblico do que o verdadeiro amor ao próximo.



