CÉLIA MUSILLI - Cultura cantada
Recentemente, quando estive em Olinda, comprei um livrinho de cordel de Ivaldo Batista, dedicado a Ariano Suassuna, com xilogravura de J.Borges na capa. Nada mais nordestino. Adorei a narrativa simples da vida de Suassuna desde seu nascimento na Paraíba, filho do líder político João Suassuna, que foi governador do estado e morreu no Rio de Janeiro em consequência dos conflitos deflagrados pela morte de João Pessoa e a revolução de 30.
Conhecia uma parte desta história, com detalhes instigantes, porque trabalhei com o historiador paraibano, deputado cassado e depois empresário aqui mesmo em Londrina José Jofilly que escreveu "Anayde Beiriz Paixão e Morte na Revolução de 30", do qual fiz também o prefácio. Foi meu primeiro teste na literatura histórica, tinha uns 20 anos. Este livro depois deu origem ao filme "Parahyba Mulher Macho", de Tizuka Yamasaki.
O cordel narra de forma leve histórias intrincadas e ricas como a de Suassuna, nada escapa: da infância à juventude, passando pelos capítulos de sua formação escolar e acadêmica, os livros de sua autoria, a criação do movimento Armorial, ligando a cultura popular à erudita, está tudo lá, contado de forma ligeira porém quase completa. Uma biografia básica que proporciona aos leitores uma narrativa fácil, além de avivar a memória de figuras emblemáticas.
Gostei especialmente dos versos que aproximam o leitor da tragédia pessoal de Suassuna que, ainda menino, aos três anos, perdeu o pai assassinado por razões políticas, como personagem de uma das revoluções mais importantes do Brasil contemporâneo. Sobre isso, Ivaldo Batista escreve com uma sutileza que repercute em nós como a dor que o poeta flagra sem, no entanto, remexer muito nela por uma questão de respeito àquilo que ainda machuca:
Período de ingenuidade
Ariano no sertão
O seu pai morto no Rio
Em trinta é Revolução
Ariano tem três anos
Não sei de seu coração
Embora nascido na Paraíba, Ariano é um ícone em Pernambuco, onde viveu a maior parte de sua vida, até morrer no ano passado, aos 87 anos. Por onde se anda em Recife há pegadas dele, personagem também do carnaval de Olinda onde se transforma num boneco gigante que desfila pelas ruas durante a folia, junto com outros personagens igualmente celebrados. Mas é de Suassuna que emana a força da literatura nordestina através de tipos inesquecíveis como Chicó e João Grilo, do Auto da Compadecida, criados para o teatro e que chegaram à TV e ao cinema.
Poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, Suassuna foi, sobretudo, um brasileiro culto e carismático. Tive a oportunidade de vê-lo numa palestra em Londrina, há alguns anos, para onde veio como convidado da Festa Nordestina. Com ele estava o artista J. Borges, criador das xilogravuras mais representativas do Nordeste. Foi a reprodução de um de seus desenhos, mostrando Suassuna ainda jovem, que me chamou a atenção na capa do livro de cordel que trouxe na mala como lembrança da viagem.
Em Pernambuco encontrei repentistas em cada esquina, sendo até mesmo objeto de suas rimas, dedicadas "à mulher da fotografia/ que deve ter muitas lojas na avenida Celso Garcia". Quando ouvi estes versos de um destes cantadores, ri sozinha. Claro que ele me confundiu com uma paulistana, por isso a citação de uma avenida conhecida da capital de SP. Mal sabia que conheço a figura de Celso Garcia de outras plagas e, como vivi durante décadas em Londrina, escrevo sobre este acontecimento como um destes milagres realizados pelos repentistas que, no fundo, têm alguma coisa de videntes.
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