Sei que muitos estão sambando, mas o que interessa ao Brasil está sem ritmo, abandonado, em péssimas condições e não merece confetes. Falo a propósito do incêndio da Cinemateca de São Paulo esta semana. Que lugar era aquele onde guardavam os filmes? Parecia um depósito de bebida barata.
Há pouco tempo foi o Museu da Língua Portuguesa e o descaso não é só com a cultura. No último domingo vi reportagem sobre as reservas florestais federais, locais que no fim vão abrigar o que restar de biodiversidade no País. Todas sucateadas, sem equipamentos, sem funcionários para cuidar da fiscalização. Na reserva de Cabo Orange há três funcionários para tomar conta de uma imensidão na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa.
O que interessa ao país está abandonado, mas para as traças não faltam recursos, nem confetes. Vemos as somas vultosas das propinas arrancadas pelos governos, partidos e lobistas das estatais que poderiam financiar o que tem valor, em vez de candidaturas indecorosas. Famílias de políticos vivem nababescamente, enquanto o resto vira sucata. Fora o descalabro identificado e reconhecido em áreas fundamentais: saúde, educação, transporte, blá blá blá.
A nação está sendo assaltada. A corrupção está matando não só setores básicos de inanição, também está matando pessoas, não preciso mais de nenhuma prova para ligar os pontos das conexões escusas. Ou estancamos essa hemorragia ou será tarde. O país e a população empobrecem a olhos vistos, não se trata apenas de recursos, mas de valores que estão sendo confiscados. Uma sangria material e imaterial que vai consumindo museus, escolas, florestas, conhecimento, memória enquanto o populismo e a demagogia servem de motes a mal intencionados.
Não bastasse tudo nos comportamos muitas vezes como torcidas e nos indignamos seletivamente. Acho contraditório: quando publico notícias de corrupção ligadas ao PSDB só uma parte dos leitores se indigna. Da mesma forma, se publico notícias de corrupção ligadas ao PT, só a outra banda se manifesta. Só alguns são capazes de reconhecer os erros sem paixões partidárias, sem passar um paninho sobre coisas hediondas.
Devemos agir como cidadãos - não como torcidas - e nos indignarmos pela corrupção generalizada. Não sei o porquê desse constrangimento em destoar da cartilha, das pregações ideológicas que enfeitam atos ilícitos para manter as alcateias no poder. Enquanto fizermos a seleção movidos por uma fé inexplicável, que beira à crença religiosa transposta para a política, estaremos favorecendo práticas de corrupção em série por qualquer um deles. Melhor ter a coragem de identificar os erros sem paixões, estamos pagando muito caro por isso. Da merenda desviada das escolas de São Paulo aos imóveis de propriedade obscura, além dos milhões que vão parar nas contas do filho de Lula sem explicação, o mal é um só: ganância e uma falta absoluta de solidariedade em relação aos brasileiros mais pobres, menos influentes, acometidos por doenças e sem hospitais, vítimas de ignorância e sem escola. Sejamos livres, com coragem de se manifestar sobre qualquer situação ilícita. Nada devemos aos políticos e aos partidos. Eles é que nos devem.
Vamos ter que enfrentar o escárnio do governo, do Congresso e do Senado, agora por questão de sobrevivência. O país está em extinção pela caçada predatória dos políticos e dos gananciosos. Ontem foi o Rio Doce, agora a Cinemateca, não há mais uma semana sem acontecimentos graves e por descaso. Olhem em volta, avaliem o que estamos perdendo todos os dias em patrimônio, empregos, cultura, meio ambiente e vidas. Estamos alimentando predadores com nosso voto. Em 2016, mirem bem aquele botãozinho das urnas e invertam a caçada. Esse já será um grande ensaio para o samba-enredo de 2018.

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