CÉLIA MUSILLI - Crônica aos velhos passageiros
Cenas em mobilidade, cenas em velocidade. Curvas, paradas, esquinas, freadas, o passageiro atrasado. Continuo a viagem nos ônibus urbanos que carregam episódios do cotidiano.
Velhinhos malabaristas entram nos veículos com sua coleção de humanidades. 70, 80 anos, já perderam a conta. Com ou sem bancos especiais sempre sobra alguém em pé e são contorcionistas. As mãos adiante seguram poltronas, um pé atrás sustenta o balanço que exige deles a flexibilidade de um bailarino de street dance sem a intenção de espetáculo. Eles são personagens de suas trajetórias, cruzam sozinhos a cidade e, na maioria das vezes, vão sorridentes. Velhinhos adoram andar de ônibus, a condução os liga à vida, é a antítese do reumatismo e da desistência.
Alguns me lembram goleiros defendendo a própria sorte como quem defende a trave para não levar o gol. Um drible à direita, outro à esquerda, um susto quando quase perdem o jogo mas se recuperam, entre um soro e outro, para a próxima partida. Não é fácil andar de ônibus quando se tem 80 anos. Mas vão resolutos, sabedores de seus direitos de entrar pela porta detrás, ganhando depois a dianteira, caso um moço decida lhes oferecer o banco. Conforto mediano, mas vão animados com seus passes de idosos e de jogadores em trajetos que parecem sempre a partida decisiva.
Os jovens não sabem o que é equilibrar-se quando se tem quase cem anos. Para trás ficaram os saltos, os rodopios da valsa, a ousadia da rumba, o ritmo do chá-chá-chá, a malemolência do blues, a alma do jazz, a vibração do rock. Para trás ficaram todos os movimentos e são os olhos que se comprimem quando pensam em distender um braço, uma perna ou mover os quadris.
Para trás ficou a liberdade de andar de motocicleta, escalar montanhas, nadar trezentos metros mar adentro, rodar o mundo em cruzeiros imaginários, pagos com cédulas tão antigas que nem se vê mais por aí. Para trás ficou a viagem urgente para ver o filho que se acidentou e não disse nada. Para trás ficaram os namoros de sábado e uma coleção inteira de almoços de domingo, com frango e macarronada.
Perto dos cem anos, eles vivem como portadores de um conhecimento antigo ao qual ninguém presta atenção, mas são os donos da memória. Até por isso, puxo conversa com os velhos nos ônibus. Fora uma dor aqui, um mal-estar ali, há um brilho que escapa dos olhos quando falam do passado com uma ansiedade enorme de chegar ao futuro. Faço com eles a interlocução da eternidade.
Não sei quantas vezes por dia um velho pensa na morte. Talvez apenas na hora do sono, quando o apagar das luzes pode remeter ao apagar desta vida. Só sei que quando os vejo sinto amor pelo humano, pelo ciclo completo de nascer, crescer, se multiplicar e, enfim, partir a cada dia, deixando para trás um fio de memórias que ainda os instigam a planos.
"Viva bem, minha filha!" Disse-me outro dia uma senhora octogenária num ônibus. Como são delicados os velhos, ossos de vidro, pele de seda enrugada, cabelos brancos, lábios finos pela retração dos dentes e um coração enorme, onde cabem filhos, netos, bisnetos e toda sua descendência, um verdadeiro trem de passageiros. Nunca sei se os verei de novo, por isso os contemplo com o encantamento de quem vê a vida em sua potência máxima de chegadas e partidas quando descem me acenando no último ponto.
[email protected]





