CÉLIA MUSILLI - Corpus
A arte erótica é um terreno delicado. Muita gente quer incursionar no Eros criativo, mas resvala na banalidade, às vezes sem perceber, repetindo as fórmulas do corpo enquanto objeto, mercadoria, vitrine de carnes. Não quero impor meu gosto nem meu olhar. Considero o conceito ''o que é pornografia para uns é, simplesmente, o erotismo para outros''. Lidamos, portanto, com uma fronteira tênue, um limite escorregadio.
Defendo o nudismo enquanto arte, natureza, cultura, costumes, mas percebo no balanço geral que a face apelativa se sobrepõe às sutilezas do corpo e outra espécie de preconceito se estabelece a partir de um olhar culturalmente viciado que confunde nudez com objeto de uso descartável.
O corpo é mais que bumbuns e coxas, no entanto é retalhado e, neste mundo imagético, nem se considera sua função de movimento e gesto, articulação poética por natureza, vendo-se por aí uma profusão de retalhos que alguém já chamou de ''feijoada completa'': um seio aqui, uma perna ali, uma língua, uma carência profunda que rebola narcisisticamente, vale tudo. E perde-se a inteireza do nu como arte de desdobramentos e .. alma.
Quando o corpo se esgota, apela-se a outros objetos como sua extensão - carros, melancias, aviões, silicones, turbinas - para emprestar algum sentido ao que se perdeu: o corpo enquanto fantasia em si mesmo, fonte de prazer por excelência e sem esforço, reduto selvagem que não carece de próteses para dar ou estimular desejos. Texturas e peles, cabelos e pelos já não bastam. Precisamos cada vez mais de artifícios para atingir um prazer que nos escapa, amortecido pelo excesso. Fico pensando que séculos de repressão causaram tanto dano e sofrimento quanto a dolorida condição humana de hoje, quando homens e mulheres se esforçam até a última fronteira do bizarro para emprestar sentidos às carcaças que sustentam.
Amo o corpo nu, mas não me conformo com os ''açougues'' que se montam por aí em nome de uma liberdade inexistente, fake como o mundo em que vivemos.
Entre os olhares sobre o corpo, em meio a uma grosseria contínua e evidente, alguns trabalhos me empolgam pela marca da delicadeza, da arte erótica na acepção da palavra, pelo viés que restaura textura e peles, cabelos e pelos, recuperando-os como fonte de prazer sem esforço e sem apelação. Nesta linha, deparo-me com escolhas de fotógrafos que são poetas do olhar e recobro a esperança porque trabalhos assim demonstram que a beleza, seja ela qual for, não se perdeu, apenas falta quem a perceba e consagre.
Prefiro sempre as imagens mostrando o corpo sem a banalização do desejo - ou do ''deseja-me'' - a qualquer preço. Fotos que tenham a marca da sensibilidade, da poesia que não se coloca à venda como fígados, moelas e outros miúdos que me provocam náuseas pela facilidade de oferta e consumo, com etiquetas cada vez mais baratas.
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





