No semana da Consciência Negra foram muitos os debates sobre o significado da data. Observei os apelos em favor de uma visão humanista das relações, não atrelada à cor da pele branca, negra ou amarela. Seria muito evoluído se já tivéssemos dado este salto. Porém, enfatizar os direitos dos negros e a dívida histórica do país com eles ainda é parte de um processo. O humanismo deve ser integral mas não dá para pular etapas.
No Dia da Consciência Negra, evocam-se as mazelas da escravidão, ferida de difícil cicatrização no lombo de quem teve ascendentes amarrados aos troncos. Memória longínqua? Nem tanto. Se hoje não se violentam pessoas como no passado, ainda sobra uma baba grossa de preconceito nas relações sociais. Foi preciso instituir cotas raciais nas universidades para que índios e negros tivessem o direito de dividir em pé de igualdade o direito ao conhecimento. Os números desmentem os racistas quanto ao argumento de que esta parcela da população, oriunda do ensino público – esta também uma discussão que merece reflexões profundas - "não consegue acompanhar o ensino superior". O saldo positivo destas políticas, além dos números de praxe, é a consciência ampliada de negros e índios sobre sua cultura, com participação muito mais ativa na vida do país.
O racismo é flagrante na história em muitos momentos. Por conta de uma pesquisa, tive que me ater aos conceitos "científicos" da eugenia, propostos pelo fisiologista inglês Francis Galton, no século 19, como "um estudo de fatores socialmente controláveis que podem elevar ou rebaixar as qualidades raciais das gerações futuras, tanto física quanto mentalmente."
Num país de grande miscigenação como o Brasil, essas teorias vigoraram por muito tempo, contaminando setores da psiquiatria no início do século 20 que promoveram um processo de higienização onde se embutiam preconceitos, compreendendo como sendo os mestiços e mulatos, por exemplo, a parte da população mais suscetível a doenças mentais. A teoria discriminatória determinou que nos hospícios uma grande parcela dos internos fosse composta por negros, mestiços e, sobretudo, pobres. Numa reprodução do modelo europeu, excluía-se nos manicômios a parte indesejável da sociedade. Isso fez escola no Brasil, dando origem a "depósitos de gente" como a Colônia Juliano Moreira, no Rio, e o hospício de Barbacena, de triste memória. Construído na região central de Minas, o hospício conhecido como Colônia foi cenário de práticas macabras das quais foram vítimas milhares de internos, em sua maioria negros e mestiços. Isso ocorreu entre os anos 30 e 80, quando os manicômios foram extintos. Tudo muito recente, tudo muito atual. O racismo é uma ferida profunda da qual só conhecemos a casca. No seu interior ecoam séculos de degradação e reverter isso ainda é uma tarefa árdua a ser construída em datas, discursos e legislação. Não dá para desconstruir o que ainda nem foi construído.

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