CÉLIA MUSILLI - Como são as despedidas
Quando você sai e abre a porta do silêncio, deixa para trás alguns ruídos, pequenos passos, frases entrecortadas, diálogos interrompidos, uma declaração - ''era tudo tão bonito'' - um réquiem que chegou tarde, orações que se perderam de Deus, a esperança tênue que se mexe como um peixe no aquário.
Quando você sai e abre a porta do silêncio, lembra-se do que não disse, do impossível, do que se esqueceu de contar, da sílaba que faltou e de todas as reticências que contém a imensidão dos vocábulos. Lembra-se que usou quatro mil anos de palavras de um dicionário escrito a quatro mãos e que plantou grãos, que nasceriam na boca da noite para serem comidos com a lua, com um punhado de estrelas, mas não germinaram.
Quando você sai e abre a porta do silêncio, percebe barulhos de grilo, gargalhadas de criança, sons inaudíveis e o grito de 'ai' da sua voz eterna. Uma confusão de paródias - ''eles diziam o que eu dizia, mas não nos escutamos direito''. Uma mentira esfarrapada, a ilusão consentida no escuro, onde todos falam consigo e não há mais interlocução.
Quando você sai e abre a porta do silêncio, encontra também a emoção mais leve, liquefeita, um rio antigo que deságua na batida de seu próprio coração, este pandeiro de vida, canto de passarinho, silvo de serpente, veneno que goteja para que ninguém morra do seu próprio excesso, embora seja preciso celebrar.
Quando você sai e abre a porta do silêncio, vê que deixou sobre a mesa um maço de cartas, recados inconsequentes, um livro inteiro, um trecho de música, a sinceridade em carne viva, histórias que se esfumaçam e sobem ao céu onde tudo é bonito e vira nuvem, a mais bela nuvem, cordeirinhos de memória, a chuva sobre um campo novo.
Então, você não olha para trás e sai...
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net





