Gosto de ouvir os barulhos da vida. A música do vento me dá a noção exata da tempestade chegando ou da tarde embalada por mangueiras cheias de frutos, como se fossem colo de mãe. Já o barulho dos grilos é o canto da noite, um ti ti ti estridente que desconfio que atrai vagalumes que ficam ali, num baile de criaturas noturnas, onde uns cantam, outros dançam e alguns iluminam.
Fora isso, há os latidos dos cachorros bravos que ameaçam pegar seres visíveis e invisíveis ou uivam entristecidos para a lua, me fazendo sentir uma inveja danada de não poder repetir a mesma coisa quando o coração está pesado e quer desafogar os gritos internos, as frases dissonantes, as vivências sem harmonia.
Já os gatos, a quem amo de paixão nas tardes preguiçosas, me assustam com sua serenata quando transformam o telhado num palco de melodramas. Para eles imagino diálogos e penso que um diz para outro: ''Me dá um vestido nooovo!'' E o outro responde: ''Eu raaaasgo!'' Num acesso de indiscrição que me faz desejar o retorno da sua elegância em manhãs de sol e muros pintados de branco.
Entre os barulhos da vida, gosto ainda de vozes de criança, um coro explícito de brincadeiras e risadas, canções entrecortadas, batidas de pés descalços, palmas para formar a roda, o galope da dispersão quando parecem cavalinhos atirados à longa tarefa da existência.
Dos velhos, gosto dos barulhos de chinelos nos corredores compridos, a música de sinos e relógios que parecem acompanhá-los sempre, mesmo quando estão calados e entregues às suas próprias histórias, a memórias silenciosas onde confundem todos os personagens, rindo sozinhos de narrativas que ninguém entende.
Dos jovens, gosto do barulho das guitarras como a que meu filho toca nas horas impróprias, uma perturbação que anima a casa, sacode garagens minúsculas, quartos onde acontece um concerto de rock e gravações improvisadas, de onde ele sai cantando em inglês: ''She's got a smile that it seems to me/ reminds me of childhood memories''. Para depois me lembrar com um sorriso: ''Isto é Guns N'Roses, mãe!''
Mas entre todas as melodias, a que eu mais gosto é a da própria vida correndo nas minhas veias, uma pulsação que ouço em momentos especiais e me dá conselhos, falando sobre a importância de escutar a si mesmo na tristeza e na alegria. Nestas horas, às vezes me transporto à infância e à brincadeira de encostar uma concha do mar ao ouvido, escutando aquele som inexplicável que me fazia imaginar que eu vinha do oceano e viveria a lenda que quisesse inventando histórias que, por sua vez, me fizeram prestar atenção a todas as trilhas sonoras do mundo como uma orquestra afinadíssima para quem tem acuidade e paciência.

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