Ela veio como um anjo, tinha nome de deusa, de bruxa, de xamã. Veio como a velha mãe que nos pega no colo, nos leva ao abrigo, prepara um chá, pergunta se queremos mesmo a transformação do vazio em ouro. A alquimia acontece quando menos esperamos, quando perdemos nosso endereço e vagamos num campo escuro e com fome. Aí, Ela vem nos ensinar os passos de volta, desde que a gente troque os equívocos pela lucidez, decidindo inaugurar em nós uma nova pessoa, que chega indócil como um bicho selvagem, mas chega.
Romper padrões não é para qualquer um, cauterizar buracos e pavimentar desejos dá muito trabalho. Exige força para rever o velho álbum de emoções sofridas, mudanças irrealizadas, fraquezas que nos tornaram dependentes de drogas que vão das pequenas concessões ao absurdo de se contentar com pouco. Carências doem, excessos matam.
Então, Ela te sacode para explorar seus próprios limites, dizer que você não precisa de contenções, que sua criatividade é a roda que gira para te colocar no ponto exato que pode até balançar, mas no balanço existem chances de felicidade, de rock efusivo, de jazz bem tocado, de valsa delicada. Ela ensina que a felicidade nunca será a dança do outro, o canto emprestado, a música desafinada de quem tenta afinar seus próprios desejos para ser aceito, porque temos a graça e a rebeldia de sermos todos diferentes!
A própria dança pode ser o ato de um artista visionário, aquele que pinta até o amanhecer a aurora que ainda nem viu. Assim - com a possibilidade de fazer da vida uma obra de arte com as próprias mãos - chegamos a uma ilha dentro de nós como náufragos que escaparam do perigo, como o cachorro que lambeu a própria ferida, como o pássaro que se arriscou no fogo e voou acima dos cipós da mente confundida. Todos nós erramos o caminho uma, duas, três vezes. Mas a conta importa menos que o aprendizado.
A coragem de mudar exige tato e proteção. Em alguns momentos, a odisseia de mergulhar na dor e emergir como quem salva a própria pele, precisa de um empurrãzinho do anjo, da bruxa, do analista, do xamã que aparecem para nos ensinar que é possível nascer mais de uma vez e que renascer é reinventar-se. A história passada a limpo não chega a ser um conto de fadas, mas exala a magia dos que sobrevivem guiados por alguma estrela, aquela que pegamos pelo rabo na Hora H.
Na minha testa, Vênus e Saturno se entrelaçam e às vezes me confundem, mas um anjo sempre aparece com uma Carta Celeste ou vem uma dama que me põe no colo. Também não descarto a ajuda de um xamã que abriga meu próprio lobo e o alimenta com a esperança de encontrar a matilha depois de correr sozinho. Escapar por um fio faz da vida um tricô delicado que, às vezes, demanda uma costura de mestres ou um bordado de artesãs da alma.
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