Cobra criada
Meus filhos tinham 7 anos quando voltaram da escola com uma tarefa: fazer uma pesquisa sobre as serpentes. Educação moderna é assim, eles mal saem das fraldas e começam a entender de ''ofídios''. A escolha das espécies tinha sido feita por sorteio. Fernão pesquisaria a cobra coral, brasileira e muito conhecida. Guga pesquisaria a cobra... colarinho. E aí começou a aventura, porque não encontramos nenhuma pista sobre a danada. Em apenas um dia, Fernão estava com tudo pronto. Caprichoso e bom desenhista, ilustrou o trabalho com serpentes lindas e contou tintim por tintim como a coral vivia, como se comportava, do que se alimentava, qual era seu habitat.

Chegou a vez do Guga. Procuramos em livros, revistas e na internet. Nada de achar alguma coisa sobre a cobra colarinho. O Guga ficou envenenado. Queria porque queria fazer o trabalho, não se conformava em voltar pra escola sem nada. Então copiou alguns textos, misturando informações, e passou mais de uma hora concentrado numa folha de papel: lápis de cor, caneta e régua na mão. Escreveu, escreveu, desenhou, pintou e veio me mostrar a pesquisa num quadro muito ''didático'':

COBRA COLARINHO

Grupo: Ofídio
Família: Elopídeos
Características:
- Corpo cheio de escamas pretas e amarelas
- Não enxerga muito bem, mas sente o cheiro das vítimas
- É carnívora
- Tem língua dividida em duas partes, chamada bífida, porque ela adora bife
- Injeta veneno nas vítimas com os dentes e depois sai rastejando toda contente
- É meio devagar, mas sobe em árvores
- Chega a 1 metro de comprimento.
- Habitat: a floresta onde faz uma toca pra guardar seus filhotes.
E acrescentou: ''Mas é uma cobra muita rara que quase ninguém conhece, por isso não tem nada sobre ela na internet.''

Eu sabia que ele tinha inventado aquilo, mas sua criatividade merecia 10. Conversei com a professora sobre as ''origens duvidosas'' da serpente. Ela riu, falou com o Guga sobre a importância de separar a imaginação da realidade, mas deu os parabéns para ele que, literalmente, tinha criado uma cobra.

Historinha zen

Tarde da noite, eu já tinha feito de tudo para meus filhos dormirem. Contei histórias, recapitulei a mitologia grega e eles, com as cabecinhas cheias de heróis, não sossegavam.
Aí, morta de sono, me lembrei das técnicas de meditação e sugeri: ''Agora vamos relaxar, limpar a mente.''
E o Gustavo, então com 6 anos, disparou: ''Limpar a mente, mãe? Tudo preto ou tudo branco?''
Foi assim que eu descobri que o moleque era ZEN...

Para encerrar, um poema que fiz para o Fernão, meu filho desenhista:

Artista

detalhe tão delicado
o dedo segura o lápis
de um jeito civilizado
mão de criança
tem cheiro de guache
borracha
sopa de letras
sorvete
leite
farelo
bolacha
uma sacada de Deus
pergunto:
cadê seu desenho, filho?
ele não mostra
mas diz sorridente:
o gato comeu

[email protected]

mockup