Célia Musilli - Cinema no país dos sonhos
Cada um sonha o Brasil de um jeito. Hoje, muitos relacionam as vitórias do País à Copa. Cada um tem o direito de sonhar o que quiser. Mas os gols que me interessam são outros, são dos escritores, criadores, artistas e cineastas como Luiz Rosemberg Filho, cujo filme Carta a uma Jovem Cineasta foi lançado recentemente.
Ele é um poeta da imagem e é com a realização de brasileiros como ele que sonho para a construção de uma identidade nacional. Eles merecem todo apoio e consideração por seu trabalho, incluindo incentivos públicos e privados. São únicos e devemos reconhecê-los imediatamente.
A exemplo de outros cineastas, Luiz Rosemberg Filho está na estrada há muito tempo, seu primeiro filme é dos anos 60, década que também ancorou a genialidade de Glauber Rocha, outro que fez cinema com a cara do Brasil, mesclando como ninguém a terra em transe, em seu cenário de política e injustiça.
Rosemberg faz um cinema crítico e poético, na contramão do circuito comercial e do mero espetáculo. Outro dia assisti a um filme dele dos anos 80, O Vampiro. Fiquei extasiada com o texto de abertura, um manifesto pungente sobre a criação, a civilização, os embates da humanidade apartada de sua "verdade". Um manifesto sobre a derrocada do homem para a burocracia e o dinheiro. O texto me pegou de modo absolutamente poético, enquanto as imagens de uma mão masculina afagando um globo terrestre e uma mulher afagando a própria genitália tomavam os primeiros minutos do filme.
As cenas e o discurso me fizeram procurar o cineasta em sua página numa rede social, perguntei a ele de quem era aquele texto. Me disse: "Célia, o texto é meu. Não tenho dinheiro para pagar um roteirista. Sabe como é, estamos no Brasil." Agradeci a resposta e o contato com um cineasta que faz de sua arte "pensamento". Coisa rara neste universo de bilheterias que só visam lucro.
Não existem muitos filmes de Luiz Rosemberg Filho em DVD. Buscando-se aqui e ali encontra-se no Youtube e no Vimeo algumas de suas produções. Ele dirigiu longas e curtas, entre seus filmes mais conhecidos estão O Jardim das Espumas (1968), As$untina das Amérikas (1975), Crônicas de um Industrial (1976), o já citado O Vampiro (1985). Mas há muita coisa para se conhecer, uma filmografia na qual se pode aventurar por meses a fio, com paradas obrigatórias em produções como Sobre o Conceito de Espetáculo, uma aula de ética e estética. Aos 70 anos, Luiz Rosemberg Filho continua em plena atividade, entre seus filmes mais recentes encontra-se Carta a uma Jovem Cineasta (2014), definido dentro da categoria de "protestos cinematográficos dos tempos de guerra."
Seus filmes têm uma forte relação com as artes plásticas, privilegiando um conteúdo crítico que nunca perde a beleza. Carta a uma Jovem Cineasta remete ao diálogo de um profissional experiente com a juventude que ainda sonha em fazer cinema, ampliando uma estética que ultrapassa o mundo da eletrônica.
Cineastas como Glauber Rocha e Rosemberg Filho são mestres na arte de elaborar situações políticas e existenciais contraditórias. Um exemplo é Terra em Transe (1967), que deu a Glauber a premiação máxima em Cannes. Segue um trecho da sinopse do filme. Quando a li para fazer este artigo, por um momento achei que estava diante dos noticiários de 2014, pela força de sua atualidade:
"Terra em Transe pode ser lido como uma grande parábola da história do Brasil no período 1960-66, na medida em que metaforiza em seus personagens diferentes tendências políticas presentes no País. Realiza uma exaustiva crítica de todos aqueles que participaram desse processo, incluindo as diferentes correntes da direita e também da chamada esquerda brasileira. Isto foi um dos motivos pelos quais foi tão mal recebido pela crítica e pelos intelectuais nacionais."





