CÉLIA MUSILLI - Cinema a 40 graus
O calor também está nas telas. Fazia tempo que os cinemas não exibiam uma safra de filmes eróticos como agora. Depois de "Azul é a Cor Mais Quente", dirigido por Abdellatif Kechiche, veio "Jovem e Bela", do primoroso François Ozon, e o nacional "Tatuagem", de Hilton Lacerda.
Esta semana, as expectativas se voltaram para "Ninfomaníaca Volume I", que estreou na sexta-feira com a marca transgressiva do diretor dinamarquês Lars von Trier, que desdobrou quatro horas iniciais de filme num Volume II que ainda será lançado. A ideia de Triers foi fazer um pornô não para excitar, mas para mostrar o "sexo vazio", então vamos conferir o anticlímax, é sempre bom saber o que os magos do cinema pretendem ainda mostrar sobre sexo. Haverá algo de novo no horizonte? O filme completa a trilogia "deprê" do diretor juntamente com Anticristo (2009) e Melancolia (2011). A estreia traz às telas o jogo cru do sexo, tendo como ninfomaníaca-mor a atriz Charlotte Gainsbourg. O que será que Trier aprontou? Tirem as crianças da sala, por favor.
Ainda continuamos sob o impacto de criações mais lúdicas. Na linha homoerótica, "Azul é a Cor Mais Quente" foi uma das surpresas. Traz o envolvimento intenso de duas mulheres e a citação poética do azul que aparece em boa parte do filme numa representação do desejo de Adèle (Adèle Exorchopoulos, na vida real, atriz grega que já deu o que falar) que contracena com Léa Seydoux (Emma). Ambas ficaram constrangidas com o resultado do filme apesar do sucesso. Acharam que o diretor explorou demais as cenas de sexo que deixam a plateia sem fôlego e são citadas por muitos como um "trunfo" do filme. Por outro lado, para alguns as cenas explícitas restringem a revelação de um plano mais emocional da relação das duas. Não resta dúvida que se trata de um bom filme e Adéle Exorchopoulos está cotada ao Oscar de Melhor Atriz. Logo veremos como se sairá naquela aguardada sessão de tapetes vermelhos e pessoas deslumbrantes, o cinema dentro do cinema, a realização que mexe com as fantasias acumuladas ao longo de tantas estreias.
François Ozon investiu em outro tema-tabu, a prostituição, em "Jovem e Bela" com a lindíssima Marine Wacht (Isabelle) no papel principal. Jovem de classe média, no filme ela burla as regras da sexualidade saudável ao investir na prostituição em vez de se contentar com um namoradinho aprovado pela família. Ozon inverte o sentido da "domesticação da sexualidade dos jovens" nas famílias liberais que permitem as filhas levarem namorados para o próprio quarto. O que nossa geração achava a solução do problema para "evitar maiores riscos na rua", parece não satisfazer uma camada da juventude que considera esta liberalidade careta. É o caso da moça do filme que resolve experimentar outras paradas sem arrependimentos. A mãe descobre seu Lado B e tenta de tudo, cobrança, conselho, terapia. Mas a jovem fatalmente retorna à vida clandestina numa demonstração do insondável do desejo humano. O querer está sempre acima do politicamente correto e Ozon surfa no tema.
O nacional "Tatuagem", dirigido pelo competente Hilton Lacerda - que estreou com "Amarelo Manga" em 2002 e brilhou no ano passado com "Febre do Rato" - traz uma história singular de uma trupe de artistas que enfrenta a ditadura cantando, dançando e debochando. Seu QG é um clube noturno de segunda classe transformado numa espécie de Broadway dos pobres. O artista Clécio (Hirandhir Santos) e o soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) têm uma relação amorosa. O vínculo coloca lado a lado dois universos opostos: o dos militares em plena ditadura e o dos artistas anárquicos.
O verão, cujas temperaturas batem em 40 graus, leva às salas de cinema um bom público, entusiasmado com os lançamentos e o ar-condicionado porque ninguém é de ferro. De quebra, com a safra de erotismo, a temperatura sobe não só do lado de fora, mas também por dentro.
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