CÉLIA MUSILLI - Cidadania é um exercício longo
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sábado, 09 de março de 2013
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Cidadania é um exercício feito de avanços gradativos. Começamos com as vogais, depois as consoantes e, quando vemos, conseguimos escrever trechos importantes da história. Há momentos decisivos para uma sociedade politizada. Escrevo este texto um dia depois do deputado e pastor Marco Feliciano (PSC SP) ter sido impedido de assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos e das Minorias na Câmara Federal. O deputado foi indicado pelo seu partido mas, em função de protestos, a indicação não foi ratificada na quarta-feira, teve votação adiada. Na quinta vimos perplexos que ele foi eleito, os deputados precisaram votar de portas fechadas para impedir novas manifestações. Mas quem vai segurar os manifestantes na mídia e na rua?
Quando assisti na TV à sessão tumultuada na Câmara, vi o empenho dos representantes do movimento GLBTT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) para impedir que Feliciano assumisse a presidência da Comissão. A bandeira do arco-íris passava zunindo sobre sua cabeça e pensei que poucos movimentos têm o nível de organização do GLBTT. Se os desempregados, os moradores de rua, as mulheres violentadas conseguissem organizar passeatas de 2 milhões de pessoas, como conseguem os homossexuais e seus simpatizantes, o mundo seria outro, o país seria outro, todos seriam mais esclarecidos, politizados e cultos, a sociedade num todo só sairia ganhando.
O movimento GLBTT e o Movimento Negro têm olhos atentos e ouvidos afiados. Não deixam baratas declarações preconceituosas como as de Feliciano, o deputado é capaz de usar pérolas como essa em seu discurso: "Os africanos são descendentes de um ancestral amaldiçoado por Noé". Segundo ele, uma referência bíblica, possivelmente tomada ao pé da letra como outras interpretações que fazem do livro sagrado, sujeito a tantos equívocos quanto a traduções. Ou ainda: "Sobre homossexuais, minha posição é mais tolerante do que se pode imaginar. Como cristão, aprendi no Evangelho que somos todos criaturas de Deus. Apenas ensino o que aprendi na Bíblia, que não aprova a relação sexual nem o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Fora isso, a salvação está ao alcance de todos."
Salvação, pastor? Quem precisa ser "salvo" é o senhor, de seu preconceito. Agora, com sua eleição, não vamos apenas ter que "salvar" você, mas o Brasil do retrocesso.
Mas como ia dizendo, cidadania é um exercício feito de avanços gradativos. No mesmo dia em que o deputado pastor foi alvo de protestos, o UOL noticiava que a Coca-Cola está sendo investigada pelo Conar Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária por causa do anúncio em que usa a bandeira do Brasil como outdoor, colando sobre ela sua logomarca. Falamos sobre isso no último domingo, o protesto contra o anúncio nasceu em rede social, foi parar no Conar e agora está sendo debatido na mídia. Não sabemos o que vai acontecer, mas este debate é também um exercício de cidadania. Mostra que a sociedade não está paralisada, apesar de anos de alienação e mensagens subliminares em propaganda. Este assunto seria pauta na imprensa de qualquer forma porque traz à tona questão nacional no nível simbólico.
Nem sempre um assunto vira pauta tão rapidamente. Pauta é como uma bola que a gente joga para o ar, os espertos pegam facilmente, os indecisos ficam perguntando: "Será? Será?" com receio de meter a mão numa cumbuca que requer ousadia.
Não tive dúvidas em protestar contra o anúncio da Coca-Cola e já expus minhas razões: ele fere o meu país simbólico. Isso ainda pode derivar para questões mais amplas ligadas à Copa e sua inserção no cenário brasileiro necessitado não de estádios caríssimos, mas de saneamento básico. Isso pode derivar para o fato de não queremos mais latinhas de refrigerantes em nossa bandeira nem em nossas praias. Queremos valorizar a cultura nacional, não a cultura de garrafas pet. Como eu ia dizendo, a cidadania é um exercício que avança gradativamente. O país está acordando. Saravá, axé, acarajé, araçá. Só a antropofagia nos une, não é mesmo Oswald de Andrade?


