Sim, me sinto piegas ao confessar que chorei vendo o show de Roberto Carlos. Mas na semana passada, quando aquele cara que embalou nossas dores-de-cotovelo soltou a voz no Maracanã, foi como ver um Fla x Flu das minhas paixões, o campeonato íntimo das vitórias e das derrotas no amor. E quem não as teve, que atire a primeira pedra. Ou a primeira rosa, como faz o Rei ao fim de cada apresentação.
Vê-lo no Maracanã foi como driblar o tempo e passar por todos os especiais da Globo, onde um fim de ano sem ele perderia a majestade. Piegas ou não, o show foi uma cobrança magistral de pênaltis, de lembranças boas e ruins, de gols perdidos, bolas na rede, memórias de todas aquelas vezes em que batemos na trave de um coração covarde ou endurecido.
Quando Roberto Carlos inclina o microfone é como se inclinasse junto as nossas vidas e derramasse emoções presentes ou empoeiradas. Ele canta ''Detalhes'' e as cenas passam pela nossa mente como um cartão-postal encontrado, de repente, no meio de um livro. Ou no meio de uma canção que fala das esquinas de um grande amor, das suas avenidas, dos pontos fortes e fracos, da dor da separação que maltrata marmanjos e gazelas. Como não?
Quem pensa que a emoção é atributo dos sensíveis e delicados, está redondamente enganado. No meio daquela platéia, de 68 mil pessoas, havia brutamontes enternecidos e executivos de cabelos brancos que a gente jura que só pensam na conta bancária. Pois estavam todos lá, enlaçando suas mulheres, como se reencontrassem suas cinturas num baile de debutantes, depois de décadas.
Havia mulheres, muitas mulheres, de todas as idades. Senhoras que acompanharam tintim por tintim a vida do Rei - desde quando ele dizia ''é uma brasa, mora!'' - até jovens para quem esta expressão parece a fala de um E.T., pra lá de demodê, palavras que exigem a providência de um glossário de... vidas passadas.
Quando canta, Roberto Carlos se transforma. Fecha os olhos e parece que vai para outro mundo, como um intérprete bilíngue do amor, um poliglota a encantar gerações. E começa um desfile de detalhes, botões de blusas, decotes, cavalgadas, temas que na boca de qualquer outro seriam a síntese do brega. Mas ele consegue passar incólume por letras até bem fraquinhas, de uma poética desgastada como rimar ''amor com flor.'' Na boca do Rei, sei lá, o dèjá vu desabrocha, a mesmice brilha e a gente se ilude como se ouvisse John Donne ou Drummond.
De repente, já com o refrão na ponta da língua, fechamos os olhos, inclinamos o corpo, derramamos emoções baratas, amores vencidos, prazeres desfolhados, lembranças que despertam dos corações partidos. E também pensamos em coisas impagáveis como ''pedir um café pra nós dois.''
O Rei não canta pra um, sempre canta pra dois, ressuscitando a esperança de que o amor é insuperável como força a mover a vida. Basta ter acuidade, sensibilidade, não se importar se o caminho tem desafios e vitórias, perdas e ganhos, placares e naufrágios.
Senhoras e senhores, para curtir uma boa dor-de-cotovelo, nada como ouvir Roberto Carlos. E também para namorar, se apaixonar ou enlaçar o tempo como quem enlaça a pessoa amada num baile eterno. Porque, em matéria de amor, somos sempre debutantes, ainda que tenhamos 30, 40, 50 anos.
O show no Maracanã mostrou também a vitalidade do afeto como fenômeno de massa, uma declaração de amor entre artista e público. Mais que isso, foi uma partida sen-sa-cio-nal! A Copa dos Apaixonados, a Taça dos Corações Solitários. O drible, o pênalti, o gol, a vitória da emoção em tempos frios e de amores burocráticos. O jogo terno sem marcadores, o Cartão Verde que dispensa comentários. Enfim, o choro, o riso e a paixão sem muita explicação.

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