CÉLIA MUSILLI - Cenas do Natal
Um bando de pessoas quase se estapeia numa banca de supermercado. No centro de tudo, uma dúzia de perus congelados. Uma mulher sacode as pulseiras e grita: "O da esquerda é meu". Traumatizada com a política já imaginei o pior. Até que ela completa: "Deixei escondido ali enquanto fui pegar as batatas". Uma espertinha pega a ave da esquerda, sai rebolando e diz: "Quem foi pra Portugal perdeu o lugar". A ex-dona da iguaria ainda grita: "perua!"
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Perto de uma prateleira cheia de enfeites, um menino de uns 4 anos, dentro de um carrinho de supermercado, estica a mão para pegar uma pequena árvore com enfeites. A mãe, em dúvida sobre comprar velas vermelhas ou amarelas, olha e diz: "Não sacode que cai, hein?" Ploft. Meia dúzia de bolas quebradas, um anjo no chão. A mãe mantendo a calma e sem tirar o filho de perto de outros enfeites, repreende: "Não faz assim que Papai Noel não gosta". Ploft. Foi para o chão uma guirlanda com mais uma bola vermelha moída. Papai Noel se controlou para não pegar a cinta.
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Na saída do supermercado dois amigos se encontram, um sai todo feliz com uma embalagem da pior cerveja do mercado. Diz ao outro: "Peguei a última", como se carregasse uma caixa de Moët Chandon. O outro replica: "Já leva o Engov".
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Na seção de vinhos, uma mulher encontra uma garrafão de Sangue de Boi na prateleira debaixo e grita: "Este sim era bom pra Kátia Abreu desperdiçar no Serra". Alguém comenta: "Verdade, e a marca é a cara dela".
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Num balcão, uma dona de casa pega um pacote de uvas passas. O marido grita do outro lado: "Se puser na maionese vai ter divórcio". Ela replica afrontando: "Deste ano não passa". E leva dois pacotes.
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No estacionamento, uma mulher sinaliza para pegar uma vaga, outro motorista encosta atrás dela impedindo a manobra, enquanto uma fila de carros começa a buzinar. A mulher não arreda pé da intenção de estacionar. O "coisa ruim" continua sem dar o espaço necessário dizendo que tinha visto a vaga primeiro, está visivelmente bêbado. Outro motorista vai tomar satisfações, fica nervoso e xinga: "Bando de desocupados, não tenho tempo a perder". O "coisa ruim" decide: "Agora que não saio mesmo". No alto-falante a música continua tocando: "Paz na Terra, bate o sino, sino de Belém". Ri sozinha, carregando minhas compras a pé. A liberdade não tem preço.
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Na feirinha de Natal, um mendigo pede ajuda a uma senhora bem-vestida, do tipo classuda. Ela lhe dá uma moeda de 1 real e recomenda: "Não vai gastar em pinga, hein?" Ele retruca: "Não, vou comprar um apartamento."
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