CÉLIA MUSILLI - Cartão-postal
Existem viagens que a gente nunca vai fazer. Como aquela de navio parando nas ilhas, almoço com gosto de vinho, resgatando a mitologia, a filosofia, a beleza, a crença na divindade profana.
Existem passeios que a gente nunca vai ter. Como aquele pelos rios do sul, um friozinho doído entrando nas nossas narinas, mas o coração quente como quem conhece o norte, o rumo, a terra prometida, o oásis depois das trilhas.
Existem romances que a gente nunca vai viver. Como aqueles dos filmes em que as pessoas abandonam as cidades, as dúvidas, os preconceitos, os traumas, o kit do déjà vu e acreditam numa experiência novinha em folha, estalando de felicidade, como a sorte apanhada no ar ou o pássaro entrando no sonho.
Existem pessoas que nunca mais vamos ver. Elas foram embora como andorinhas na última migração, o cão que sumiu de casa, a paisagem que não se repete, o segundo parado num velho relógio de bolso sem corda.
Existem datas que não se repetem. Os aniversários da infância, o baile da primeira dança, o Natal com os pais que partiram, as férias com os filhos que se mudaram, a festa suspensa, o plano que não vingou.
Existem palavras que a gente nunca vai dizer. Aquelas que extrapolam os dicionários, os glossários de termos permitidos, ressoando no vento como o inusitado, a sonoridade do mais refinado erotismo, um esfregar de seda entre os dedos, de ostra entre os dentes, de salto sobre o assoalho encerado para o tango.
Existem encontros que nunca vão acontecer, porque perdemos o endereço, escureceu antes da hora, o medo paralisou, o rei foi devorado em Creta. E ficamos ali parados como uma velha fotografia, um navio, um passeio inexistente, o livro fechado, as palavras suspensas, o porto num cenário de cartão-postal.
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