Célia Musilli - Carta aos que me escrevem
Uma pessoa me envia poemas, outra envia crônicas. As duas querem saber se o que escrevem é bom. Não sei bem o que dizer, mas reconheço a ansiedade que compartilho com todas as pessoas que criam. Todos dizemos que escrevemos, em primeiro lugar, para nós mesmos e isso não é mentira. Perdi a conta de quantas cartas enderecei a mim e quantas espalhei pelo mundo, na tentativa de comunicar o que sabia e o que não sabia, mas buscava compreender pelos olhos dos outros.
Todos nós escrevemos para sermos lidos, mas a primeira pergunta que se deve fazer é ''qual o motivo íntimo que nos leva a escrever?'', como bem questionou Rainer Maria Rilke na sua ''Carta a um Jovem Poeta''. O que estava em jogo, era saber se o jovem que lhe fazia perguntas tinha a necessidade de ser escritor, como se aquilo que não conseguimos expressar em nossas relações encontrasse na escrita a correnteza capaz de preencher a busca por significados.
O fato é que muitas vezes não cabemos na vida, nossas emoções não se ajustam aos pequenos espaços destinados a comunicar o que vai num coração inquieto, num espírito onde as formas se perdem, mas guarda os conteúdos de encantamento ou angústia. Que bicho estranho é o ser humano em sua trajetória incansável de comunicar aquilo que, às vezes, deságua na beleza de uma criação.
Claro que nem todo mundo é assim. Há os que se contentam com um porre, com a ilusão de aplicar sua fantasia num dia de trabalho duro ou numa noite de diversão passageira. Nada contra. Mas há os que acordam ou nem mesmo dormem buscando a expressão de uma coisa que não é concreta, mas pulsa e vibra como a vida prestes a nascer a qualquer momento. Nesta lista se inscrevem os poetas e os escritores, os músicos e os artistas, e todos os que acreditam na utopia de capturar a realidade para enfeitá-la ou mesmo repetir sua feiúra.
Só na poesia podemos pintar de azul um céu que amanheceu cinza ou converter em manancial o riozinho poluído da nossa infância, onde passamos tempos tão...limpos. Mas poesia não é só beleza, tampouco amor. É angústia processada, ferida aberta, corte suturado à custa de linhas e palavras. A concorrência é grande, há enormes pulsações criativas na poesia de todos os tempos. Lendo Whitman me encolho à minha mediocridade inventiva, ainda assim me arrisco em palavras, palavrinhas que sejam, e sinalizo aos que me perguntam sobre textos que importa mesmo é fazer o que se gosta ou aquilo que é maior que a gente mesmo e nos redimensiona.
Quantas vezes quisemos amar, mas não conseguimos. Quantas vezes quisemos ser livres, mas não despregamos os pés do chão. Então, que as palavras nos redimam porque na poesia não há roteiro impossível e podemos todos assistir à nossa imaginação. Não fosse a poesia, bem ou mal escrita, a frustração seria maior.
Perdi a conta de quantas cartas enderecei a mim mesma e que, inadvertidamente, caíram na caixa-postal dos leitores.
Perdi as contas de quantos poemas revirei do avesso sem conseguir a forma perfeita. Ainda assim, são eles os meus sinais de vida latente. Vai daí a importância da pergunta: vocês escrevem porque têm necessidade? Se a resposta for sim, sigam em frente sem se preocupar com o impacto que o texto irá causar. Em primeiro lugar, um texto nasce porque precisa, porque precisamos dele, e seu destino será sempre uma incógnita.
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