CÉLIA MUSILLI - Carta aos filhos
Queridos filhos, não queria voltar a Santa Maria, tudo já foi dito sobre as cinzas daquela boate incendiada. O que me move é uma réstia de luz sobre o futuro, o desejo de que nunca mais a festa termine em tragédia. Jovens combinam com festa, não com lágrimas e muito menos luto. A juventude é o ápice da vida, a explosão dos hormônios que se reproduzem em dança, risadas e espinhas. Nenhum problema, uma cicatriz no rosto é bem menor que uma cicatriz na alma. Para que seus hormônios sejam o combustível da balada, centenas de funções orgânicas se movimentam, num circuito vital que deve cumprir um ciclo perfeito até a velhice e, só então, à morte.
Com todo respeito aos velhos, me dói muito mais a morte da juventude, porque se trata da interrupção abrupta de um ciclo, como a maçã colhida antes da doçura, a fruta indigesta que amarga a língua.
Para que vocês cumpram seus ciclos, tenho que lhes ensinar uns truques, alguma proteção que se some aos anjos-da-guarda que coloquei sobre seus berços para que sirvam de guia também nas noites insones, ruas e viagens, para onde vocês partem levando apenas os celulares.
Meu conselho, neste caso, não significa nenhuma garantia. Mas alguns toques podem funcionar na hora H evitando a fatalidade. Assim, peço para não se confrontarem com a violência, evitarem brigas e bate-bocas neste mundo de perigos e falas exaltadas. Mas desejo também que tenham instinto de lobo em vez de se consagrarem como cordeiros aos sacrifícios.
Para preservar o lobo dentro de vocês, o animal selvagem, o guerreiro que habita cada um de nós, preciso treinar seus sentidos e, sobretudo, acender sua consciência. Então, meus filhos, não aceitem qualquer distração nem qualquer ambiente. Certifiquem-se sempre que há portas de saída antes de entrarem em cubículos escuros e construções feitas para conter, não para expandir, para prender, não para libertar. Há nas construções modernas a marca de uma cultura opressiva. Nunca entendi por que as boates são lugares frios, voltados à pura tecnologia, sem janelas, sem ar, sem portas em quantidade suficiente para tanto público. Parecem uma caixa de loucos, uma camisa-de-força amarrada à batida eletrônica.
Nada contra a música, mas vejo que a cultura também não oferece saídas. Acostumamo-nos a viver contidos, a esperar nos "currais" cercados antes das portas. Se é difícil entrar quem dirá sair, ainda mais quando seguranças defendem comandas em vez de defender a vida.
Então, por favor, não deem dinheiro a quem só visa o lucro. Reivindiquem as coisas antes das tragédias. Exijam bom tratamento. Nunca se apavorem diante das situações mas, sobretudo, nunca sejam apenas cordeirinhos obedientes às regras. Aqueles jovens de Santa Maria deviam ter tirado os seguranças das portas da boate a cadeiradas. Porque estupidez a gente às vezes resolve a cadeiradas. Não sei se estariam vivos, não sei se isso evitaria a tragédia, mas a rebeldia é sempre mais indicada que a submissão. Vivemos numa sociedade voltada ao espetáculo, voltada ao lucro e as pessoas se sujeitam a isso. Pulem o muro, questionem as regras, mudem tudo. Muitas vezes a rebeldia protege nos indicando a saída num mundo de catracas.
Beijos da mãe!
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