Aquele sábado amanheceu fora da ordem. No noticiário, o nome de Mário Bortolotto apareceu associado a expressões ruins: assalto, tiros, crime. Não bastasse, vinham depois aqueles palavrões dos boletins médicos: hospital, cirurgia, hemorragia, sedação.
Aquele vocabulário me fazia mal porque, definitivamente Mário, seu texto é outro. Nos acostumamos a ver seu nome associado a palavras como teatro, personagem, livros, cinema, rock & blues. Associado a peças que tem títulos líricos como ''A Lua é Minha'' ou engraçados como ''Medusa de Rayban.''
Então o sábado, depois daquele texto pesado, ficou muito triste. De repente, todos os amigos ficaram quietos. Não chegava nenhum e-mail, o telefone não tocava. Era um silêncio de fazer angústia como um destino congelado e a gente sem saber se um dia ele voltaria a escorrer nas nossas vidas, na sua vida, como esperança líquida e certa.
O domingo amanheceu com cara de segunda-feira. Acordei com medo de acessar a internet e descobrir uma sentença daquelas que não deixam saída. No fundo, sabíamos que se você vencesse aquelas primeiras horas, tudo voltaria a ser como antes, mas tivemos que esperar pacientemente. Eu me lembrava de um de seus textos mais bonitos, ''Os que vão viver tu sacaneia'', que diz: ''Deus ... não quer ver minha cara feia no céu/ Ele não quer minha urina doce nos para-choques celestiais/ Por isso me calçou com velhos bambas/ Me amamentou com livros..''. Eu pensava que quem escreve textos assim devia ser poupado.
Sempre te achei muito forte, com aquele andar de urso que usa coturnos e sai de sobretudo pelas ruas como um personagem dos filmes. É verdade que nunca te associei a um daqueles ursos malvados da América do Norte, das montanhas frias da terra de Kerouac. Sei que você não vai gostar da imagem Mário, mas para mim você sempre foi um ursão de pelúcia, uma pessoa afetiva que diz: ''Oi Celinha,'' quando me encontra em Londrina ou numa esquina qualquer de São Paulo.
Por tudo isso, quando soube daquele tiroteio em que você foi o alvo, rezei pra Deus, pra Zeus, pra Thor, pra Tupã. Pensei em encomendar uma pajelança, um benzimento, qualquer coisa que tirasse você daquele maldito risco. Pensava que quando te encontrasse de novo, te daria um abraço tão forte que você cuspiria a terceira bala, aquela que os médicos não encontraram dentro do seu corpo. Então, quero pedir Mário, para que você nunca mais engula balas. Melhor beber bourbon ou uísque nacional on the rocks. Mas bala, não.
Nestes dias descobri que você tem ainda mais amigos do que a gente imaginava. Eles estão em Londrina, São Paulo, Salvador, Aracaju. Eles choraram quando você quase perdeu a vida. Ninguém queria te perder para três balas. Pra nossa sorte, descobrimos que você tem mesmo um coração valente e aqueles anjos que às vezes você invoca nas madrugadas, dando bandeira da sua fé nuns textos, definitivamente existem.
Quando te acertaram Mário, levantamos em Londrina uma onda de energia como quem levanta o pó da terra vermelha, para dar junto com você a volta por cima. A torcida foi grande. Ela também se levantou em São Paulo, no Rio, em qualquer ponto do Brasil que chorou e depois se alegrou, quando percebeu que o pior havia passado e que você tem a proteção de Deus, aquele mesmo que te ''calçou com bambas e te amamentou com livros.''
Outro dia, encontrei no blog da Neuza Pinheiro um texto de Pedro Maciel que transformei em oração. O repeti em momentos de aflição e o repito agora, como quem sela uma alegria. Preste atenção Mário, porque este texto cai tão bem quanto aquele seu velho sobretudo: ''Se na hora grave de um homem toda a compaixão dos outros homens se juntasse para impedi-lo de partir, este homem não morreria.''
A melhor manchete do ano foi você ter ficado com a gente.

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