Caro Neil,
Entre você e Louis Armstrong sempre fiquei com o jazz. Mas confesso que sua viagem me deixou algumas vezes com vontade de ir à Lua. Agora que você voltou para o andar de cima, por favor, espie e nos diga: como você vê a Terra? Yuri Gagarin disse que ela era azul. Mas aqui embaixo anda tudo cinza, sem chuva, com muitas queimadas e falta quase absoluta de poesia.
Pensando nisso escrevo esta carta para sua partida e sei que você sentirá saudade deste nosso mundo absurdo, apesar de tudo. Mas como um experiente viajante poderá de vez em quando voltar aqui, afinal, para você nunca houve fronteiras entre os mundos. Foi capaz de sair daqui e ir à Lua, onde deixou até uma pegada, pegada humana, que as tempestades de areia devem ter escondido, mas ficou na nossa memória.
Quem dera todos os homens tivessem uma vida como a sua, ir à Lua não é para qualquer um, somássemos todos os que chegaram lá, não teríamos sequer uma tribo. Mas você esteve entre os que partiram primeiro e chegaram. Confesso que nos anos daquela Guerra Fria, na minha infância, torci para os russos em solidariedade a meu pai. Ele amava corridas espaciais, era comunista e fazia cara feia às coisas que vinham da América, algumas que eu gosto bastante, como o rock.
Mas em matéria de viagem espacial, a torcida de meu pai era mesmo pelos soviéticos, uma espécie de FlaXFLu com pinceladas de ficção científica. No ano em que nasci, ele vibrou muito com minha chegada e com a partida da cachorrinha Laika que fez um gol, indo ao espaço como o primeiro ser terrestre a viajar tão longe. Laika entrou em órbita no espaço, eu na Terra. Meu pai se sentiu duplamente recompensado mas evitava, quando eu era criança, comentar que a cachorra desapareceu no infinito. Eu só soube do destino dela muito mais tarde, quando um cara chamado Malashenkov revelou que Laika viajou a bordo da Sputink 2, uma nave metálica, onde era alimentada por comida gelatinosa e acabou morrendo de calor, horas depois do lançamento do foguete.
Já sua história no espaço é bem mais feliz, Neil. Você foi o primeiro homem a pisar na Lua e disse aquela frase célebre quando deixou por lá as marcas do seu sapato de astronauta: ''Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade.'' Para ser sincera, sempre achei esta sua frase meio ensaiada, como a de tantos homens importantes que têm o texto na ponta da língua para consagrar seus feitos. Ainda assim gosto do que você disse, embora Gagarin tenha sido mais poético ao declarar: ''A Terra é azul.'' Este azul, visto por outro ângulo, deixou muita gente sonhando com o lado B do espaço, assim como já sonhávamos perscrutando o céu visto aqui embaixo. Com a frase de Gagarin tudo ficou definitivamente azul, cor que deve ser também a da eternidade, esta que você contempla agora sem precisar de comida gelatinosa e dando quantas voltas quiser na Lua.
Só posso te desejar ''boa viagem'', certa de que você vai gostar demais desta jornada. Como homem do espaço você encontra, afinal, seu destino, sem foguetes e muito mais leve do que quando deixou aquela pegada, fazendo um gol de placa para a América. Para completar, torço para que você encontre Louis Armstrong numa noite embalada a jazz.


Até um dia.


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