CÉLIA MUSILLI - Carta a Londrina
Londrina,
Não vivo mais em suas ruas, mas a levo comigo. Por onde passo, levanto uma poeira vermelha como os jipes da minha infância. No último domingo, numa cidade paulista, soube do incêndio do Teatro Ouro Verde, do qual vi, realmente, só a fumaça. Não estava aí para torcer pela extinção do fogo, torci à distância pedindo aos amigos que me enviassem notícias e recebi uma foto que mostrava o interior do teatro devorado pelas chamas. Então, percebi que sobrou a fachada, a armadura de um guerreiro que, no último momento, ainda nos iluminou com um arco-íris, produzido pelo vapor da água nas tentativas de apagar o fogo. Este foi seu último espetáculo. O arco-íris era uma visão de palco que, nas suas origens, foi também um templo do cinema em technicolor.
A comoção de Londrina pela perda de seu teatro foi a maior que já vi. A cidade chorou a destruição do edifício como quem perde o pai. Extinta a última faísca, esvaziada a rua onde centenas de pessoas passaram o domingo, voltaram todos para casa com a impressão de terem sido vencidos no ringue, num assalto impiedoso que confrontou o amor ao teatro e o fogo. Enquanto as notícias corriam, as redes sociais se transformaram em avenidas de manifestação. Todo mundo escreveu sobre o que sentia, amigos jornalistas postaram suas lembranças transformando a internet num memorial instantâneo. Não faltaram nem flores para o Ouro Verde, abatido pouco antes de completar 60 anos..
A semana seguiu com as promessas do governador Beto Richa que deu aos londrinenses a esperança de reconstruir o teatro. O desafio é grande e deve custar uns 25 milhões de reais. Mas é possível retomar o projeto original e segui-lo à risca, ele tem a assinatura de Artigas que, com certeza, endossaria o sonho pela segunda vez.
Torço para que a promessa do governador não seja só promessa e crie ecos acima dos partidarismos nas esferas municipais, estaduais e federais. Torço, principalmente, para que a população possa fazer um coro de aleluia no lugar do coro da tragédia. Cheguei a pedir nas redes sociais, Londrina, que sejamos todos ''japoneses'' na reconstrução do teatro, porque no Japão as reconstruções acontecem rapidamente depois dos tsunamis e, de repente, cidades inteiras despontam das cinzas. Então, governador, sejamos japoneses desta vez. O senhor sabe, Londrina tem traços desta etnia no seu sangue.
Agora, vejo o esforço de artistas e agentes culturais para manter o calendário de eventos da cidade. Este ano, mais do que nunca, Londrina precisa contar com seu senso de improviso, decerto haverá mais teatros em barracões e praças serão transformadas em salas de concerto. A cidade é PhD em criatividade, mas isto não basta. Com o incêndio, sentimos na carne nossa condição de sem-tetos da Cultura e chegou a hora de colocar a ação no lugar da comoção: queremos o Ouro Verde de volta e também um Teatro Municipal. O desejo se justifica pelo nosso DNA artístico, nossa veia cultural e nosso coração de poetas da vida urbana. Isso não é pouco e chega de discurso.
Até breve, Londrina, te vejo nos festivais.





